SUTIL FILAMENTO
Pedro Brasil Junior
 
 

Violetas na janela e um suave perfume de jasmim!...

Isso foi há muito tempo, logo que eu saí do meu casulo para bater asas pelo mundo.

E essa viagem fantástica, embora esteja beirando os cinqüenta anos, muitas vezes me parece ter começado há poucos dias.

Apesar disso, já foram tantas as caminhadas e tantas as experiências que o cansaço torna-se evidente e a cada novo dia, as energias se recompõe e a vida segue seu trajeto nessa incrível aventura através do tempo.

Talvez esse viver tenha algo semelhante à mais pura seda, que nasce também à partir de um casulo num incrível e sensível fio que proporciona a existência de uma espécie única de mariposa.

Me peguei analisando a vida e lá fui, sorrateiro, pesquisar a respeito do nascimento da seda através dessa magia que só a natureza é capaz de criar.

Assim como as larvas, somos nós antes de dar início a todo o preparo de nosso tecido de vida. Depois, já como lagartas, buscamos nossa transformação e queremos sim, nossas asas para singrar os céus da existência e simplesmente usufruir do que a vida pode oferecer de melhor.

Verdade que nem sempre é assim. Até me arrisco em afirmar que nunca é assim. A vida é repleta de surpresas e de obstáculos que alteram nosso curso. Em todo caso, e como precisamos das asas, seguimos adiante, construindo nossos casulos que, neste caso, são todas as experiências, doces ou amargas, não importa.

As lagartas que tecem seus fios, o fazem com maestria e por isso, mais tarde, serão dignas das asas e do poder de perpetuar a espécie e permitir assim que muitos outros fios possam ser criados e aproveitados pelo homem na confecção desses finos e cobiçados tecidos que simplesmente chamamos de seda.

Nós, por sua vez, construímos sim, nossos casulos. Mas esses são rudimentares e na maioria das vezes, deixam muito a desejar.

Nossa passagem é tão rápida quanto a das lagartas mas o que deixamos é consideravelmente muito pouco diante de nossa capacidade de promover transformações para um mundo melhor.

Quando saí do meu casulo, o mundo abriu seus portais e desde então, tenho procurado tecer os melhores fios na tentativa de contribuir para a construção de um novo tempo.

Não preciso necessariamente de asas e nem tampouco de um tear para provar minha passagem. Mas necessito filtrar as emoções e todas as experiências de maneira que eu possa estar de bem comigo e com a vida, não importa o dia, nem a hora e nem o local.

As violetas daquela janela e o perfume de jasmim foram apenas um encontro de essências, desses que acontecem todos os dias pelo mundo. A questão é como perceber tamanha dádiva e dela se valer para seguir a viagem pelo caminho então traçado.

O cair da tarde agora se apresenta como magnífica cortina de um espetáculo único. Tonalidades prateadas misturam-se com o degrade típico do arco-íris para anunciar a chegada das estrelas.

Hora de me recolher aos sonhos e ao próprio interior. Mas se a vida me permitir um verdadeiro espetáculo, quero sim, ter um desses encontros de almas onde a silhueta-mulher estará dançando as sutilezas do amor, envolta por uma fina seda cor de violeta.

Porque apesar da viagem e da minha longa travessia, as vezes é preciso usufruir também dos maravilhosos segredos que os oásis da existência colocam à disposição do nosso coração.