O
LADO BOM DE SER ARTISTA
|
|
Suzana
Fagundes
|
|
Lá se foram os anos, as décadas, sem ver parente algum. Sem desejar vê-los. Sem contar que moravam a grandes distâncias, fossem elas geográficas ou ideológicas. Todos faziam parte de um passado de infância, de adolescência e da idade adulta também. Nada mais combinava entre nós: eles e eu, eu e eles. Nem frases, nem troca de olhares, nem as menores intenções de sociabilidade. Cada parente vivo era testemunha de meus erros e desenganos pela vida. Falavam entre si, com comentários cheios de julgamentos. Pobres juízes! Eu era motivo de verdadeiras conferências entre eles, os distintos parentes. A começar por pai e mãe. Depois os primos, tios, avós, irmãos. As conferências englobavam: "Que pena!", "Que lástima!", "Como foi?", "Por quê?", e assim por diante. Ouvi dizer que quem fala da vida dos outros já não se agüenta dentro de si. É preciso, então, extrapolar, jogar para fora um pouco de negatividade, de tudo aquilo que não deu certo ainda, ou nem vai dar certo nunca, lá dentro do indivíduo. Todos os poetas são malditos, como eu mesma. Uns desgraçados. Olham para a vida com reservas, com a sua ótica particular. Não fazem parte do que se pensa ou julga o resto da sociedade em geral. Ou a família. Preferem o isolamento, viver sem bandeiras ou muita intimidade. E não suportam pertencerem ao grupo familiar. E é aí que o conflito se forma, como um bolo esportivo sem ganhadores. Os poetas são desenvolvidos e só o sonho, por si só, os transcendem a outro nível. Ao nível da deliciosa alienação: a de não pertencerem ao sistema, ao Estado, à vila, ao vilarejo, à cidade, aos muros das cidades, a nenhum país em particular. Os artistas, como eu, são apenas cidadãos do mundo. Esquecem-se de onde nasceram e por que nasceram. Vão vivendo livremente, sem correntes, regras ou mordaças. Às vezes, um regime ou outro os pega. Aí vem a prisão com barras de ferro ou a prisão domiciliar. Seus corpos ficam lá, mas sua alma, personalidade, arte e ciências não se deixam aprisionar. Então, por que deixar que a família os cerquem com tanta curiosidade? Por que a família e todos não deixam os artistas, para que possam ser loucos em paz? Isto é o lado bom de ser artista! |
|
Protegido
de acordo com a Lei dos Direitos Autorais - Não reproduza o texto
acima sem a expressa autorização do autor
|