A
FRUTA E A VERDURA
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Bóris
Yan
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Há três ou quatro semanas que o Alfredinho só falava sobre uma tal aventura extraconjugal. Contava, todo orgulhoso, aos amigos, sobre seu desejo exacerbado pela mulher do verdureiro. - A dona Rosaria é um mulherão! Seios fartos, cinturinha fina, pele bem tratada, cabelos sedosos, meiga, um colosso! - Homem, se emenda, o verdureiro não é trouxa. Recomendava Getulio. - Se o verdureiro de pega, batata, ele te mata na hora. Analisava Roberval. Alfredinho se divertia com os temores dos amigos. - Diariamente vou ao mercadinho e peço para ver os melões. Ela responde que um dia me mostrará os melões maduros. Contava salivando. - Adultério é arriscado. Aconselhavam - Tudo tem seu lado bom! Dizia esfregando as mãos. Todos os dias antes de começar o expediente os confidentes perguntavam: "E a madame já mostrou os melões? Já viu o nabo?" Sussurravam aos risos no corredor do escritório. - Estou quase lá! Explicava todo eufórico. - Não vale a empreitada criatura! Insistia Roberval. - Vale sim senhor! Aliás, nunca fiz isso antes! Agora é uma obsessão! Preciso levar essa pequena para cama. Sempre me imaginei correndo riscos e agora estou vivendo isso. O namorico às escondidas já se desenrolava há meses e a cada semana ficava mais quente. Um dia, finalmente, dona Rosaria se rendeu aos galanteios de Alfredinho. O rapaz contou eufórico aos amigos. - Dona Rosaria gosta de mim, vocês entendem? Vamos nos esbaldar. O verdureiro é uma besta. Dizia as frases sem nexo e quase alucinadas. - O verdureiro é um baiano de sangue quente. Orientava Getulio Alfredinho nem ouvia esses comentários e argumentava orgulhoso. - Me escutem, a dona Rosaria é um anjo. - É um anjo que trai o marido verdureiro contigo. Es uma besta, rapaz! Concluíam. Alfredinho imaginava como seria divertido e excitante provar aquela fruta madura, enquanto o marido "chifrudo" estava às voltas com cebolas e batatas, às vezes sentia até remorso, mas tudo depende do lado que se vê. Ponderava. Enfim, na data escolhida o verdureiro passaria o dia todo na fazenda de um fornecedor de frutas. Tudo combinado aos detalhes. Alfredinho levantou bem cedo, banhou-se, barbeou-se, perfumou-se, ainda reforçou o desejo com uma gemada forte. Era pura excitação. Aliás, os amigos também estavam excitados, tanto que marcaram de encontrarem-se no boteco do Alemão, na rua quinze de maio. Queriam ao fim da tarde para conferir todos os detalhes sórdidos da aventura do companheiro. Ainda antes de sair de casa, Alfredinho ligou para o mercadinho. - Alô! minha uva, escuta, já vou pra tua casa. - Estou com medo amor, o Osvaldo anda tão estranho. - Quem? -O Osvaldo, ora bolas! -Que Osvaldo? - O meu marido! Esqueceu que sou uma mulher casada. - Me esqueço que o verdureiro corno tem nome. Gabava-se Alfredinho. - Pare de gracinhas que fico tímida. Alfredinho suspirava de desejo e ansiedade. - Um beijo bem molhado nesta tua boquinha de morango. Provocava o rapaz. -
Me escuta você. Vou chegar primeiro que ti é claro, às
11 horas. Deixo a porta apenas encostada. Você
chega depois e empurra a porta e entra. Espero-te. Dizia gemendo. O coração de Alfredinho quase saia pela boca de tanta euforia. O rapaz chegou uma hora antes do combinado. Fumou meia carteira de cigarros. Viu quando dona Rosaria apareceu toda sorrateira. Na verdade, ainda faltavam alguns minutos, mas Alfredinho estava tão excitado que nem esperou a hora marcada. Abriu o portão. Empurrou a porta encostada e foi entrando. Ouviu o barulho do chuveiro ligado e guiado pelo som achou o quarto. - Ela deve estar no banho. Disse baixinho. Decidiu tirar toda a roupa e deitou-se na cama já desarrumada. O som do chuveiro cessou. Houve um breve silêncio. Os minutos pareciam horas. Respiração ofegante. Calor. Desejo. De repente o Osvaldo saiu do banheiro envolto numa pequena toalha florida. Quando os dois se viram foi um espanto só. Os olhos de Alfredinho, nu e entre os lençóis, quase saltaram das órbitas. Os olhos de Osvaldo, nu e envolto na toalhinha, brilharam de susto e depois de raiva. Num gesto rápido e brusco Osvaldo alcançou um facão vindo não se sabe de onde e gritou: - O que você faz pelado na minha cama seu amarelo da peste. Alfredinho gaguejou tentando formar uma frase. -Eu te mato "cabra safado". Gritou mais alto. - Fala alguma coisa tua desgraça. Ordenava o verdureiro. Alfredinho estava mais branco que o normal e tremia compulsivamente. - Sr. Osvaldo, depois de meses... Eu hoje tomei coragem e vim até aqui para ver...ver...ver dura. Disse quase chorando. Osvaldo franziu a testa, sorriu, depois pensou um pouco alisando a barriga peluda. Houve uma pausa constrangedora. O verdureiro dispensou o facão. - Bom, minha mulher teve mesmo que sair... Você me parece tão corajoso... Gostei... Perdi um compromisso importante hoje, mas é como a Rosaria sempre diz: "Tudo sempre tem um lado bom nessa vida". Disse isso com um risinho no canto da boca. |
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