Atualização 185 - Tema Livre
BIOGRAFIA
DIFERENÇAS ANGUSTIANTES
Sérgio G. Muknicka

Anoitecia normalmente lá fora, enquanto dentro do quarto gritos inexistentes ecoavam em sua cabeça. A escuridão crescia a cada minuto como o silêncio que parecia atenuar a melancolia, a raiva, a dor, tudo, menos o barulho. Olhava para o céu, nada mais que um universo de carvão; sentia-se sozinho. Queria morrer.

Assim como seu dono, a casa estava igualmente abandonada. A cozinha, um nojo completo. A pia cheia de louça suja, engordurada e copos espalhados por todos os cantinhos escuros. Naquele momento, não pensava mesmo era em limpeza. Devido a todo uísque que tomara, sua visão bambeava e o estômago tentava regurgitar algo que não havia ali, droga! Enquanto isso a parasita estava alegre em algum lugar dessa cidade. Praguejou alto. Não importa! Nem os sapatos caros, nem sua inteligência peculiar. Era uma parasita; usou-me, não usou? Ela, porém, não escolhia qualquer um. Uma vez que combinaria bem com um atleta, quanto mais forte, mais leso. Mas não, ela queria os introvertidos e anti-sociais, porque assim o desafio era maior. Embora levasse tempo, com boa vontade e interesse ela conseguia. Ah! Já conseguiu tanto. Não queria nem quantidade, nem qualidade; ela queria precisão. Quanto pior o resultado, melhores eram suas táticas. Provavelmente aquela mulher era toda feita de incitação, provas concretas de um mal ancestral. Ao final das contas ela, feliz, dançava ao som de solos de guitarra e eles ao som de árias tristes. Sempre assim. Eram noites escuras cheias de pessoas bonitas e desesperadas. Ela olhava uma escultura abstrata tentando entender a dita obra de arte, quando ele chegou e tentou falar da melhor maneira que podia:

- Bonito anel. De citrino, não é? Disse com cara de entendido, enquanto olhava o grande anel no dedo nela.

- É esse o nome? Ela respondeu com um olhar desinteressado.

Ele a olha, depois a escultura, e tenta novamente:

- Bonita, não é? Ela pára, pensa um pouco... coitado:

- É bonita; mas... vamos sair daqui.

O temporal cairia em minutos, mas algo mantinha as pesadas e negras nuvens firmes como estátuas. Apesar de a cena ter tudo para ser bonita, era comum. O azul profundo do céu, carros e seus faróis ansiosos para voltarem às suas garagens. Nervoso e com a boca seca, ele a todo minuto discava números já memorizados. Ninguém queria responder do outro lado da linha telefônica. Olhando pela janela do quarto lembrou-se do final de semana no qual ela mentira. "Quero ficar em casa hoje, acho que estou com febre". Ia vagueando pelas ruas quando a viu do outro lado da rua, em uma sapataria, rindo com as amigas. Teve vontade de pular, ser atropelado e arrebentar-se no concreto. As pálpebras pesavam. Necessitava de uma cama, qualquer coisa que o acalmasse. Um banho, um café, o colchão com seus convenientes anexos.

- "É esse o nome?" Disse com um sorriso de sexta-feira.

- Não acredito - repetiram as amigas.

- Pois é, e aí começou... - ela falou com entusiasmo.

O que ela fazia era isso. Na vinda, trazia beleza, um fugaz burburinho e só. Na partida, o prazer, paixão e arrebatamento, tornavam-se um misto de violência e catatonia. Talvez ela não fora de todo ruim. Já que, ao contrário da nossa previsibilidade, ela era bonita, elegante e natural. Nunca era pega, pois os homens não sabem perceber nada, sequer um anel bonito, mas de vidro.

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