PRECISA-SE | ||
Zeca
São Bernardo | ||
Ficou lá a velha placa... com seu eterno dizer logo na entrada do que fora uma das mais prosperas fábricas da região. Lembro-me do dia derradeiro de seu fechamento, os rostos tristes dos ex-funcionários, seus olhos perdidos em meio às nuvens turvas de um futuro incerto. Guardo, desde então, muitas e muitas histórias daquela gente, daquela época. Muitas não aconteceram exatamente como me lembro, bem sei, afinal se esperar que uma criança de oito ou nove anos de a devida importância aos fatos que afligem aos adultos é querer muito, não? Outras tantas recolhi de ouvido bem aberto nos anos seguintes. Em todas sempre figurava as chaminés, a torre da administração, o ostracismo daquele velho que diziam ser o dono daquilo tudo e acabou seus dias como indigente entre os escombros de seu sonho transformado em ruínas pelo tempo e pelo descaso do novo proprietário do imóvel. Quem bem de perto olha o caminho da sala principal onde fazia-se a moldagem das peças finais ainda pode ler o lema pintado de azul desbotado sobre o qual gerações e mais gerações trabalharam mantendo-o sempre como motivação: iô-iôs Brasil indo e vindo enquanto o futuro não chega! Ironias á parte, permanece - como já disse e escrevi acima - a placa com seu eterno dizer de precisa-se! Sim, sim, precisa-se, mas do que? Precisa-se, talvez, que o tempo esforce-se e encontre a maneira de andar para traz confundido os ponteiros de todos os relógios e traga de volta a pujança daqueles dias? Precisa-se de crianças mais inocentes que brinquem com iô-iôs ao invés de conquistarem universos paralelos que só existem num mundo virtual? Não, nada disso, precisa-se isso sim de que alguém com coragem vá lá e arranque aquela placa do lugar de uma vez por todas e deixe vazio o espaço que hoje ocupa para ficar simetricamente compatível com os retângulos abaixo e façam sentido ao menos geométrico. Já que sentido humano algum poderá ter outra vez... | ||