O DURO GOLPE DE UMA SURDEZ FORÇADA
Ken Scofield
 
 

Os motores roncavam e era dada mais uma largada de uma corrida de Kart, no alambrado, torcendo, ou apenas acompanhando, somente pelo gosto da velocidade, algumas centenas de pessoas. Entre elas, um sujeito magro e de ar preocupado fazia umas anotações, seu pensamento parecia estar bem longe do que acontecia na pista. Sua “meditação" era interrompida por uma pergunta. Um rapaz que parecia não parar nunca de coçar a barba, lhe perguntava:

— Carlos, que mania que você tem de trabalhar nos piores lugares possíveis!

—Ora, Jorge, aqui é bem mais tranqüilo que lá em casa, acredite!

—Ok, realmente, vendo as coisas assim, eu concordo. Você espera terminar quando?

—Não sei, Jorge, pretendia antes do final de semana, mas tá bem difícil.

—Quer que eu o ajude?

—Não, obrigado mesmo, assista a corrida, deve tá emocionante, afinal esse povo tá gritando tanto.

E, mais uma vez, Jorge sentia aquele mesmo desapontamento, começava a perder a esperança de ganhar a confiança de Carlos, pelo menos quando se tratava de algo com uma maior importância.

Meses se passaram e finalmente Carlos olhava para o fruto de seu trabalho: um livro enfim finalizado que já se encontrava nas prateleiras de uma conceituada livraria. Nele, podiam se encontrar apontamentos de como proceder nos mais raros casos de medicina. Era como um guia do médico, tratando desde ocorrências meramente patológicas, bem como intervenções cirúrgicas. Sua obra causava polêmica, pois mesmo sendo bastante coerente e trazendo tecnicamente as soluções mais aceitáveis e estatisticamente mais usadas, recebia fortes críticas por estar de certa forma induzindo procedimentos de forma mais prática que teórica. A estatística era a base do livro.

Longe dali, dois boxeadores disputavam o título de campeão nacional na categoria meio pesados, de um lado, o atual campeão Frederico Antunes – O ROCHA, do outro, o desafiante Marcelo Tigre. Tigre era um lutador guerreiro que vencia lutas incríveis, nas quais parecia estar totalmente derrotado. Tal luta também era acompanhada por jovens pela TV.

— Vai, vai, derruba ele, dizia Gabriel

—Ei, você viu? De novo, e você não viu?

—O que Heitor?

—Esse Tigre usa de golpes baixos toda hora e ninguém vê?

—Caiu, caiu, não se levanta mais, eu falei, o tigre vai vencer

—Também, desse jeito, eu também ganharia.

O agora ex-campeão era levado ao hospital, parecia que seu estado era muito grave.

Meses depois, Carlos estava sentado no banco dos réus e ouvia aquela frase que não seria a mais dolorosa de todas naquele dia:

—Profiro a sentença com base nos autos e por unanimidade do juri: Culpado...

As demais palavras nem foram ouvidas por ele

Ficava lembrando os fatos e pensando consigo mesmo como poderia imaginar que a repercussão da morte de um campeão de boxe, quando o procedimento cirúrgico teria sido única e exclusivamente executado seguindo o seu livro fosse lhe levar a tanto sofrimento. Em seguida ouvia seu amigo Jorge:

—Está vendo Carlos? Você não deixava eu te ajudar... Tudo que eu dizia não era aceito... avisei que esse seu projeto teria que ser feito tomando-se os cuidados necessários, indicando outras fontes de pesquisa e jamais visando apenas o lado prático.

Então um filme rápido se passava em sua cabeça, lembrava de todas as sugestões do Jorge, as quais ele pouquíssimo ou nada aproveitava. Naquele momento, sentia como se tivesse investido um duro golpe baixo contra si mesmo.