MEMÓRIA IMPLACÁVEL
Plínio Rodrigues
 
 

Adalberto era um homem simples, um homem qualquer, igual a tantos outros, não fosse seu desejo de ter nos braços tantas mulheres. Boa aparência, jeito sério, nada que revelasse seu devasso mundo de busca pelos prazeres da carne, esse era Adalberto, um homem e suas memórias, um homem e muitas mulheres.

Já longe da vida mundana, Adalberto relembrava cada rosto, cada detalhe das mulheres de sua vida, lembrava de Aninha, moça linda, de pernas perfeitas, cor de canela, que se abriram ao deleite e prazer, ali muito houve por fazer, quão prazeroso foi para Adalberto desvendar os segredos entre as pernas de Aninha.

Sônia, a de lábios rubros, rosto menina-moça, mas corpo mulher, lembra Adalberto, que ficou banhado nas lágrimas desta mulher, naquele dia em que lhe roubou um beijo; tantas mulheres, entre elas Márcia, sua vizinha, a via todos os dias, recebia seu sorriso e com ele sonhava e o momento e Márcia, também, esteve em seus braços, a vizinha lhe era mais que sorriso, era o grito em seus ouvidos, no momento que a fez possuír.

Adalberto podia se gabar de ter muitas mulheres entre seus braços, de todas as raças, de todos os níveis sociais, lembrava em suas memórias de Cláudia, loira, elegante, de alta classe social e ele, Adalberto, simples homem de periferia, pouco estudo, quase nada de valor em sua vida, mas Cláudia esteve nos seus braços, deito-se com aquele homem de rudes modos, cheiro acre de pó e periferia, Cláudia sentiu em seus seios os lábios toscos de Adalberto.

Quantas relembrar? Todas. A memória de Adalberto é implacável, tem os detalhes mais íntimos de todas elas, cada olhar, cada gemido, cada sussurro dito onde nada havia por testemunha além dos olhos e ouvidos de Adalberto.

Lindas mulheres, de idades variadas, sim Adalberto teve jovens e não tão jovens em seus braços, todas em sua memória de noites de prazer. Adalberto não esquece que bem poucos homens podem dizer que ousaram beijar como ele ousou.

Em um último momento Adalberto lembra daquela a quem não beijou como mulher, esteve nos braços dela e ela nos seus, mas não houve desejo, não houve a vontade da carne, houve apenas ternura e carinho, está mulher a lembrar, é sua mãe, a mulher que Adalberto, em sua memória implacável esqueceu por muitos anos, mas neste momento em que lembra de cada mulher de sua vida lhe vem à mente como a única a lhe ter amor, as outras? Só passaram por sua vida, nada mais.

Adalberto, não mais lembrará de nada, no estertor de um último espasmo seu corpo cai inerte ao chão, com o estilete, rubro de seu sangue, cravado no peito, sua garganta, cortada de fora a fora Adalberto é agora mais um nas estatísticas dos estupradores mortos por seus próprios companheiros de prisão e agora é ele novamente a estar nos braços da mulher que abraça todos os homens, a mulher que sempre será a última de nossas vidas, a morte.