INACEITÁVEL
Bruno Pessa
 
 
Até onde vai a irracionalidade humana? Se estivéssemos em 1906, o que você diria se soubesse que em pleno século XXI o homem ainda não terá sido capaz de preservar sua própria espécie, apesar da avalanche de conhecimentos e descobertas propiciadas pela ciência?

Suponho que você duvidaria da afirmação contida na pergunta acima, provavelmente influenciada* pela crença inabalável no progresso da humanidade – um dos motes do pensamento positivista que moldou o ideário social no tempo dos nossos avós e bisavós. Permita então que eu a transporte 100 anos adiante no tempo, para novembro de 2006, a fim de verificarmos quão evoluída encontra-se a sociedade científico-tecnológica do terceiro milênio. Depois quero que me responda se estamos caminhando de fato para frente, ok?

Vou dar uma colher de chá para a humanidade, desconsiderando pisadas de bola homéricas no trajeto desse século que você está percorrendo, como duas guerras mundiais (pra ficar só nas declaradas), bomba atômica, terrorismo, concentração de renda, fome, tráfico de drogas e por aí vai. Vamos olhar apenas para fatos pontuais do ano em que escrevo estas linhas. Recorramos ao Google, pois não temos muito tempo (depois eu te explico o que é isso). Digite a palavra Iraque e veja o que aparece nos sites dos meios de comunicação. Pois é, os EUA estão lá para promover a reconstrução e a paz, porque antes tinha um tirano que insuflava a violência entre os grupos étnico-religiosos da nação. Só que em outubro desse ano morreram 3.709 civis iraquianos, sem contar os soldados norte-americanos que acabam literalmente dando a vida pela sua pátria. É assim que se faz o bem para os outros, entendeu?

De uns anos pra cá, os brinquedinhos têm sido cada vez mais eletrônicos. Você ficará impressionada quando vir o que um Playstation 3 é capaz de fazer. Mais ainda quando souber que pessoas acampam e dormem em frente de lojas para esgotar as unidades do videogame em minutos. Pena que se atropelem e se esmaguem quando a loja abre. Nos EUA, um desafortunado fã morreu após ser pisoteado pelo afã descontrolado de um grupo, ou melhor, de um bando de fanáticos. Se você achar que isso é paranóia de yankee, eu lhe digo que aconteceu o mesmo com crianças e adolescentes na avançada São Paulo, meses atrás, momentos antes de um show de uma banda. Nem brasileira era, nada acrescentando aos que se matam por ela ao pé da letra. Pode perguntar a qualquer um com o mínimo de discernimento crítico.

Ah, esses jovens. Tanta vida pela frente. Muitos deles se entregam desmedidamente ao álcool, achando que porre é bom e alcoólatra é só quem bate nos outros depois do pileque. Ok, até aí seriam apenas problemas individuais, se a “alegria” da embriaguez sempre terminasse na ducha fria. Mas quando ela assume o volante de um carro, a chance da imprudência virar tragédia é altíssima, não só para quem está dentro do automóvel. Aí depois que os filhos se vão, os pais começam a conscientizar os demais pais e filhos que ainda podem ter um futuro diferente. Sim, a gente ainda não aprendeu muita coisa sem ser pela via dolorosa. Só mudam os personagens. Agora a moda são as jovens que deixam de se alimentar para serem aceitas nas passarelas do mundo da moda. Tanta criança que pede esmola por um prato de comida...

Você pode me contra-argumentar com base no aumento da expectativa de vida, que é geral e nítido no Brasil. Justo, se vive mais e se vê mais idosos. Mas você também ficaria preocupada se o seu avô andasse sozinho numa metrópole como São Paulo, com grandes chances de ele engrossar as fileiras das principais vítimas de assalto. Se fôssemos minimamente civilizados, a fragilidade da terceira (melhor??) idade nos despertaria no mínimo alguma atenção. E não a condição de alvo perfeito para tomar o dinheiro que sustentará nossa dependência química. Assim foi alvejado um casal de velhinhos, há poucos dias, na São Paulo espelho da diversidade brasileira.

Este é o panorama, cara viajante no tempo, e não vou nem tocar numa ameaça mundial chamada aquecimento global porque penso já ser o bastante. Sim, também existem as facilidades da vida pós-moderna, como o Google, e os motivos para sorrir, é claro. Mas, voltando à pergunta lá em cima, para onde estamos caminhando? Se você também considera inaceitável tudo que lhe mostrei, pelo menos já demos um passo adiante.

* me refiro às mulheres porque, já que temos de generalizar, é mais justo que o façamos com quem é maioria entre nós...