COM ÊNFASE
Alex Sens Fuziy
 
 

Acordei com o teu rosto estampado no porta-retrato. E então me esqueci. Esqueci de dizer adeus, esqueci dos bombons na mesa de cabeceira, esqueci da chuva na janela, do frio nos pés, do cappuccino sobre a lareira de pedra. Esqueci de dizer que te amo com ênfase, faltou. Faltou. E ponto. E eu nem sei mais o que faltou, mas sinto esta falta pairando no ar como uma incógnita burra e desorientada. O que me falta completa-te e por isso deixo-me sem nada. E por isso eu vivo apenas de mim, no meu triste esquecimento.

E eu sorri. Porque esqueci de chorar, esqueci de franzir o rosto e olhar para o sol ao invés da lua. Esqueci da minha declaração sobre o gelo do carro. Esqueci de lembrar o importante e esqueci algumas nuvens, tempestuosas, num céu que fica a pouco mais de dois metros da minha cabeça. Oca.

Meu amor, esqueci de chamar-te de amor, mesmo o sentindo dentro de nós. Estranho? Não. Apenas o meu esquecimento silencioso preferiu profanar seus cantos declarativos de um modo mudo. Porque nem língua o canto do meu âmago possui mais. Cortei-a com a maior faca da cozinha. Aquela de carnes, que agora fere os tomates e faz um suco sangrento pra minha manhã. Com pimenta.

Esqueci porque meus instantes do agora me consomem e não deixo espaço pras lembranças. Esqueci de dizer do morango que explode vermelho entre os dentes e da vontade de adocicar este céu que me amedronta. Vontade de ti dentro de cada morango que me escorre.

Tu me dissestes não te esqueças, e eu não evitei. Deixei que o esquecimento me levasse pra dentro de ti. Para então lembrar-te de mim.

Esqueci de dizer: não escrevi esta carta pois meus dedos tremiam. Apenas recitei-a para o amor.

PS: amo-te. Com ênfase.