VELHO AMIGO
Luísa Domingas
 
 

Recebo notícias de um amigo distante. Chegaram a mim sem que eu as pedisse, embora as desejasse, porque foi com ele que aprendi que, quando queremos algo, pedir é a melhor maneira de não conseguirmos.

A carta está fechada sobre a mesa, e me enrosco na angústia elástica de não abri-la logo, para não fazê-lo como se escovasse os dentes, mastigasse algo que tem o gosto de sempre ou cumprisse qualquer das coisas quaisquer que são o meu tijolo cotidiano. Não sei que diferentes seres alados estão presos neste envelope, nem o que haverá nele que me fará acreditar ou não nestes seres. Sei que agora, na sala transbordante de sol, cortinas prenhes de vento – como são as belas as tardes livres em dias de semana! – estou próxima como nunca de algo que tentarei me lembrar o resto da vida sem nunca conseguir, algo que aconteceu num dia como este, as mesmas cores, a mesma luz, há tanto tempo atrás que provavelmente quem viveu esta memória foi outra que não eu.

Recebo notícias de um amigo distante, um velho amigo meu. Uma carta em caneta azul, o que terá acontecido com a tinta preta de sempre? Você se cansou da filosofia, leio, e da música também. Quer apenas deitar-se no mar, boiar, boiar, e ter a sorte de ver relâmpagos à noite ou na tarde repentinamente escurecida. Quer se sentar despretensiosamente na calçada onde batucam e cantam, e admitir a si mesmo que afinal samba é música boa sim. Venderá sua coleção de Fradim, ou talvez não. Talvez, apenas talvez, a envie a mim – mas com certeza já terá mudado de idéia quando chegar a hora de procurar o rolo de barbante e o jornal para embrulho. “Um presente desses num embrulho de peixaria”, diria você, como tantas vezes antes: um vinil do Pink Floyd, uma fotografia da minha casa à noite para que eu soubesse como é minha janela enquanto durmo, cem gramas de açafrão em um vidro transparente.

Não tem planos para amanhã, leio, nem para hoje. Abandonou o relógio, meu velho conhecido de há quatro anos, e não postou mais nenhum texto em seu quilométrico blógue. Pensa em usar calças jeans pela primeira vez desde sempre, e promete que da próxima vez que nos vermos me olhará nos olhos e me deixará vencer uma partida de sinuca, sem orgulho nem nada. Estará com a alma tão leve, tão nova em folha, que eu não verei em você o desconforto que conheço de cor, e uma gargalhada de todos os poros terá substituído o riso quieto, e pela primeira vez desde que nos conhecemos você me acompanhará na madrugada vazia até minha casa, leio.

Concluo que, uma vez mais, não conheço meu velho amigo. E, uma vez mais, lhe digo “muito prazer”.

 
 
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