DO
SANGUE AO SUGO
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José
Luís Nóbrega
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Não se achava velha. Ainda carregava consigo os belos traços da juventude. Médica respeitada, não conseguira o mesmo respeito em um casamento de curta duração, havia anos desfeito. Enquanto passava o batom vermelho pelos lábios carnudos, o coração batia mais forte, fazendo lembrar uma adolescência reprimida, perdida num tempo distante... A secretária estranhou os lábios vermelhos da patroa, os quais contrastavam com a indumentária branca que ia do pescoço aos pés. Deixou a ficha do próximo paciente sobre a enorme mesa de vidro, voltando-se em direção à porta, anunciando ali em alto e bom som: - Sr. Marcos! Mar-cos, refletia a doutora, olhando fixamente em direção à porta. Mar-cos!... Marcos! Que lindo nome! Mar... Olá! disse o paciente para a médica que se perdia entre os próprios pensamentos. Como que acordando de um sonho, ela o fitou atentamente, enquanto o moço puxava a cadeira para sentar-se. Os olhos da médica percorriam a ficha do paciente sem conseguir ler uma palavra do que estava escrito lá. Mar-cos! Que lindo nome! Que belo homem! insistia ela em devaneios. Percebeu a mão trêmula a segurar a ficha. Levantou o olhar, encontrando à frente o doce olhar de Marcos que a observava com um largo sorriso nos lábios. Seria a senha para a entrega? Ele também se sentia atraído por ela, ou aquilo era fruto da imaginação de uma mulher carente? Levantou-se, pedindo que Marcos a acompanhasse até a sala de exames. Mar-cos!... As pernas tremiam tanto quanto a mão que segurava a papeleta. Não teve coragem de olhar para trás e ver se ele ainda sorria... Marcos parecia haver decorado o procedimento que se repetia em cada consulta. Sentou-se na maca, abriu a camisa, aguardou a médica que procurava (de mãos trêmulas) o estetoscópio na gaveta de uma mesa ao lado. Já com o aparelho nos ouvidos, ela passa a auscultar o coração de Marcos. O aparelho a deslizar por aquele peito peludo... Mar-cos! repetia a doutora em pensamentos. Tum-Tum... Mar-cos! Que homem lindo! Ela retira o aparelho dos ouvidos, acariciando com a mão o peito do paciente. Ele levanta a cabeça, procurando com o olhar respostas para o que estava acontecendo. A médica se entrega, dando-lhe um demorado beijo na boca, percorrendo a mão pelo peito peludo de Marcos, que afasta o rosto depois de alguns instantes. Ela, em um reflexo maternal, traz novamente a face do paciente para próximo de si, apertando a cabeça do jovem contra o próprio peito, acariciando aqueles negros cabelos. Ele a empurra e sai, com a boca toda marcada pelo batom vermelho, que também se espalha por parte do rosto pálido de um Marcos irreconhecível. Imóvel, a médica chora ao ver a saída desesperada do jovem. Retira-se em seguida do consultório a passos largos, deixando para trás pacientes impacientes. Ela só pensa em ir para casa... E vai... Os filhos estranham a mãe fazendo o jantar, tão cedo, longe do trabalho. Ainda vestida de branco, ela mexe e remexe o molho da macarronada, dando pequenos soluços de choro. Sentados à mesa eles aguardam em silêncio o jantar ser servido. Quando a mãe-médica se apresenta com a travessa de macarronada, os filhos entreolham-se, como que se perguntando o que seria aquilo. A blusa branca da mãe, na altura do peito, toda marcada de vermelho, um vermelho vivo... Seria sangue do consultório ou respingos do molho ao sugo que ela sabia preparar como ninguém?! A blusa branca marcada pelos lábios de Marcos... Mar-cos! resmunga a médica baixinho, soltando soluços, enquanto coloca a macarronada no prato dos filhos... |