CORAÇÃO
DE PAPEL
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Luísa Domingas
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Passei a eternidade dos meus vinte e dois anos cometendo os mesmos erros - não tenho nem ao menos o mérito de ser original. De modo que, noite após noite, meus pesadelos têm sido os mesmos. E os motivos da minha insônia também. Eu me lembro de cada uma das suas histórias. Queria tê-las ouvido da sua boca, dos seus olhos. Sinto que devia ter inventado um final feliz pra pelo menos uma delas: a nossa, se houvesse a nossa história, ao invés de apenas e-mails. Ao invés apenas dos e-mails possíveis entre dois desconhecidos. Se eu tentasse não errar, teria construído, dobra após dobra, dominando o tremor e a teimosia das mãos, um coração de papel, como na primeira história que você me contou. Escreveria nele o convite nunca feito. Vem a minha rua, diria. Quero que a minha casa te veja. Encontre-me no mercado da avenida, diria. Estarei de verde, sem sorrisos, sequer no olhar. Vamos caminhar sem rumo, diria, todas as quartas-feiras de madrugada, até nos encontrarmos de repente, de surpresa, sem nunca ter marcado lugar para encontro algum, e essa será a única maneira de nos reconhecermos. Eu diria tudo isso em um coração de papel. E, com ele nas mãos, ficaria sem saber em qual portão o deixar, e continuaria sem o saber mesmo que passasse diante da sua casa. Ou diante de você. |