SEM TRAJE
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Virgínia Pinto
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Tu
não te lembras da casinha Passei os olhos pela derradeira vez. Todos os cantos estavam absolutamente vazios. As cortinas presas nas janelas. Paralelas e desajeitadas. Soltei-as. Arrumei-as, delicadamente, como sempre ficavam. Perfeitas para guardar a luz e aconchegar os que ali viveram em algum lugar do passado. Tranquei a porta e parti como se todo o meu tempo tivesse ficado aprisionado naquelas paredes e guardadas no cofre do meu coração. Talvez, uma das tarefas mais difíceis da vida, seja desfazermos a casa em que nossos pais viveram. Eles partem, sem avisar, para alguma morada onde nossos olhos não alcançam e nada levam consigo. Cabe a nos, neste duro instante dar um destino a tudo material que restou. Éramos seis. Papai, mamãe, dois meninos e duas meninas. Fomos nascendo e mudando para cidades do interior onde l'a nascia mais um e depois outro, at'e sermos uma fortaleza construída sobre a rocha e ao sabor do vento. No inicio fez-se João e a ele foi agregada Inês, para cuidar dele e ser nossa segunda mãe; minha, do Junior e da Martinha também. E caminhamos por todos esses anos sem pensar aonde chegaríamos, por que não importava aonde e sim que, onde quer que fossemos estaríamos unidos. Ao longo de tantos anos fomos juntando coisas. Úteis e inúteis. De repente, neste final descobrimos que carregamos tantas coisas, em tantas mudanças, e hoje tudo tinha que ser partilhado, eliminado, doado, vendido ou jogado fora. Roupas, moveis, copos, pratos, lembranças, algumas ainda do casamento deles, quadros, livros, discos de vinil, fotos de todos os tempos de nossas vidas e da deles e um piano. Como foi difícil separar e dar um destino a tudo! Cada um, harmoniosamente, escolheu o que lhe fazia mais sentido e trazia aconchego à alma solitária. Talvez nossos pais estivessem por trás iluminando cada passo nosso. A divisão foi mais fácil do que esperávamos. Não imaginava quão difícil era acomodar um piano e mais complicado ainda se desfazer dele. Ele ficou para mim, por determinação de todos, por que embora os quatro tenham aprendido a tocá-lo, consegui tirar dele musica e alegria por mais anos e sentimos que o destino dele a mim pertencia... Muitos dias foram necessários para que tudo fosse saindo, aos poucos, cada um com suas escolhas e obrigações. Hoje finalizamos a derradeira destinação. Por ultimo partiram os livros e os discos para não esquecermos o que ambos nos diziam: - A maior herança que deixaremos a vocês 'e a educação. APROVEITEM!!! |
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