TRAJE COMPLETO
Daniela Fernanda
 
 

Foi ao evento naquela noite como quem vai a um baile a rigor. Estava sóbria. Inacreditavelmente não bebera absolutamente nada naquela noite. Seu semblante era firme, quase frio. Beleza estupefante. Olhar altivo. Andar digno de uma rainha.

Quando entrou no recinto, provocou ciúme, desacomodou as mulheres presentes, incitou até mesmo o mais vil dos sentimentos; a inveja. Os homens que ali estavam sentiram admiração, fascínio, desejo talvez... uma mistura de medo, cautela e respeito.

Enfim, lá estava ela, dona de si, deslumbrante como sempre. Aquela mulher era, sem sombra de dúvidas, o centro das atenções, dos olhares, dos comentários...

Era jovem, rica, bonita, inteligente, sexy, terrivelmente sexy. Fumava, bebia, jogava e principalmente sentia prazer em tudo o que fazia. Sentia prazer em sorrir, em falar, em trabalhar e, ainda por cima, naquilo que mais doía nos outros, em viver.

Havia possuído tudo aquilo que uma mulher comum e até mesmo aquelas que por um motivo ou outro se consideram especiais, desejaram um dia nos seus sonhos mais íntimos.

Teve um marido considerado bonito, rico, charmoso, galanteador e desejado por praticamente todas as mulheres da cidade. Dera à luz a três filhas dignas de títulos internacionais de concursos de beleza e comentários acerca de sua bondade, caráter e idoneidade, comparáveis somente aos das princesas mais admiradas do planeta. Sua residência fora simplesmente a mais bela, a que oferecia o jardim mais florido e colorido, a grama mais verde, a piscina mais limpa, a pintura mais graciosa que o bairro jamais sonhara ousar ter. Os casais de amigos mais ilustres freqüentaram sua casa, nas festas mais sofisticadas e comentadas da cidade, eventos nos quais se apresentava com os trajes mais luxuosos que a cidade ousou prever.

Agora estava ali e relembrava a doce e amarga vida que tivera: momentos vibrantes e luxuosos, dos quais a comunidade local participara e, principalmente, os sofridos episódios que atravessara completamente isolada. Quantas vezes gemera de dor e sofrimento no escuro do seu quarto, na dureza dos seus macios travesseiros, no calor dos frios lençóis, enquanto esperava uma divina transformação e clamava ao seu Deus pela volta de seu esposo, naquela noite, ao seu imaculado e abençoado lar pelo eterno laço do matrimônio. Quantas e quantas vezes clamou ao Ser Supremo a fidelidade conjugal contraída na noite das bodas. Fidelidade àquela que jamais conhecera. Por inúmeras vezes, prostrara-se de joelhos em prantos, com o coração literalmente depositado aos pés do Criador, implorando por ser a única mulher naquele corpo, naquele coração. Infelizmente ela jamais fora ouvida pelo seu Deus, aquele em quem depositara toda a sua esperança e sua fé.

Mas hoje estava ali, e escolhera um traje completo. Era luxuoso, preto, inconfundivelmente de luto. Vestiu-o com esmero somente para enterrar aquele que um dia fora o seu marido, o seu amor, o seu companheiro, mas, principalmente, o seu algoz.

Aquele traje preto, naquele momento, naquele local, simbolizava a sua tristeza, a sua amargura, a mocidade perdida, as palpitações descompassadas que sentira, a pressão alta que a perseguia, os momentos de descontrole que teve na vida.

Naquela fatídica noite, vestida de negro, lembrava de tudo o que vivera, até mesmo a noite de faca na mão à beira da piscina, os copos atirados nas paredes, as roupas jogadas do segundo andar, os pratos quebrados ao chão...

Mas, principalmente, aquele traje completamente negro anunciava o enterro daquele homem e o renascimento da vida daquela mulher.

 
 
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