REGRESSIVO
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Willy
Steinmüller
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Para Aluska, viver intensamente é motivo de risadas, e assim ela seguiu seus dias por toda sua vida desde o momento que abraçou a eternidade como um traço marcante e como idéia fixa. Deitada no seu sofá conseguiu arrepender-se de tantas coisas, conseguiu prender a respiração por tantos anos e vencer tantos desafios, porém nenhum digno de glórias, nada que pudesse fazer sua pele aquecer ou seu coração bater acelerado; nada que pudesse trazer de volta o valor que um simples mortal poderia encontrar nos gestos mais medíocres, no sorriso, no abraço... No beijo! Inveja foi o que sobrou para ela que abriu mão da imprevisibilidade, desistindo do que nunca poderia prever, vivendo na dúvida e incerteza seus dias, embora com sabores; amargura foi o que sobrou do pote que secou tão rápido com sua curiosidade pela imortalidade. Como foi acabar seus dias assim? Perguntava-se infinitamente sem uma resposta, quanto tempo esta carcaça carregou um corpo, este saco de ossos sem motivo ou razão, este simples vampiro sem fome, apenas a sede insaciável, apenas a necessidade de um pouco de vida em suas veias que destruíram não somente seu sangue, mas principalmente sua alma. A fria estaca, não mais fria que seu gélido coração repousava fixa e ereta sob seu peito, cansou de esquecer, cansou de ser esquecida. Não mais almejava depois de tanto tempo por vida, pois este nome já não mais significava o que para todos seria uma incógnita perpétua. Seu único desejo, este que por tantos anos adiou e protelou, seria por sentir o que tantos temem... E assim o fez pressionando a estaca contra seu coração e perfurando-o com todas suas forças, com toda a dor que carregou durante sua passagem, sua parasitagem, com todo o amor que nunca sentiu, com toda a vontade de enfrentar e encontrar-se com a figura de quem se manteve invisível por tanto tempo: A morte. Um
último suspiro e sentiu dor, calor, frio, e medo. |