LASCA QUE MATA
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Juraci de Oliveira Chaves
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Demoradamente Milla se examinava no espelho. Sentia-se mais bonita e mais susceptível ao amor ou a novas amizades. Escutava no antigo relógio os ponteiros marcando a hora que combinara com o companheiro de viagem para observarem de perto, os vários penhascos e enormes montanhas, vistos ao longe. Conhecera Robert , no trem de ferro com destino a Filadélfia, há um ano. Ele, sentado ao lado dela pouco falaram mas, trocaram alguns olhares. Por força do destino estavam a passeio novamente e juntos na mesma Mansão - Hotel. A
batida de leve na porta de seu apartamento assustou-a pois ainda era
muito antes da hora combinada com Robert. "Devem ser morcegos do
lado de fora, trombando nas janelas." Tudo ali era estranho e cheirava
a enorme volume de dinheiro. Corredores intermináveis com diferentes
reflexos, com certeza, ocultavam muitas histórias e lendas vampíricas.
O luxo ostentoso agradava os turistas mais afortunados. Parecia ser
uma ilha,ladeados por lagos recheados de sapos e rãs. A sinfonia
desses não tinha intervalos. Nova batida leve, na porta... - Quem é? - Sou eu, Milla. Vim buscá-la mais cedo da noite para aproveitarmos a bela paisagem à beira dos penhascos. A lua não demora se esconder no horizonte... Apressadamente, rodou a chave da porta destrancando-a e continuou a maquiar-se no espelho da maleta-frasqueira. Sentiu as mãos de Robert sobre seus ombros e segundos depois estremecerem, apertando e quase machucando-a. - O que há Robert ? Está tremendo!... Não se sente bem ? - Eu?... Não, não se preocupe - disse ele, passando as pontas dos dedos pelos cabelos pretos e lisos que teimavam em cair pela testa. Já pensara muitas vezes em deixar os cabelos bem curtos mas, devido a sua estatura muito alta e seus ombros bastante largos, preferiu manter esse corte que também combinava com seus ternos sempre negros e pesados... "Não sei porque as mulheres gostam tanto de espelho!" - pensou consigo mesmo. - Robert, você não me respondeu - insistiu ela.- Você está bem? Está com a feição tão diferente!... - Claro que estou bem - respondeu ele ensaiando um sorriso postiço. - Bem mesmo? - Ó, Deus! Bem mesmo. Sinto-me tão disposto hoje!... - Pensei que fosse desmaiar, - murmura Milla preocupada. Em silêncio Robert ficou observando sua nova pleiteada, bem vestida , maravilhosa e com rios de sangue correndo em cada parte de seu corpo. Sentiu até o barulhinho do líquido vermelho navegando entre os vasos sangüíneos e por pouco não conseguiu conter o desejo de deixar a marca naquele pescoço perfumado. - Como está a noite lá fora? - Fria e enluarada. - Hum! Pode me ajudar a colocar esse adorno? É só apertar esta travinha aqui, mostrava Milla com esmero: - Este crucifixo foi herança da minha falecida mãe e para mim é uma relíquia. Gosta? Sem responder, Robert jogou o crucifixo sobre a cama dizendo: - Já estamos perdendo muito tempo e não tenho jeito para lidar com esses melindres. Vamos? - Disse arrastando-a com uma ligeira brutalidade. Quase não deu tempo de pegar a bolsa e colocar dentro a inseparável gargantilha. Estranhou a atitude do rapaz, mas nada comentou. Estava apenas começando a conhecê-lo. Após andarem bastante, maravilhados com o encantamento do lugar - parecia mágico - sentaram sobre um rochedo e ficaram a admirar tudo ao redor.. Palavras eram desnecessárias. Robert se mostrava carinhoso tentando não espantar a moça como quase fizera a pouco. Necessitava de energia naquela noite. O sangue lhe fazia bem e aumentava até seu apetite sexual. Milla não percebeu que a lua se foi e as trevas engoliram a paisagem. Uma repentina tempestade se formou e sob a luz de relâmpagos - que agora surgiam espessos e velozes seguidos por trovões estridentes - a fez observar a transfiguração ocorrida no rosto de Robert. A palidez dominava sua face, a boca triplicava de tamanho e seus dentes pontiagudos e afiados ultrapassaram o limite dos lábios masculinos. Seus olhos pareciam fogo. Milla sentiu um medo irracional paralisando todos os seus movimentos e uma sensação terrível de insegurança, cresceu dentro dela. Teve vontade de fugir correndo e afastar-se daquele local, mas parecia estar amarrada. Robert a enlaçava e de vez em quando dava-lhes umas mordidinhas "delicadas". Ela perdeu paulatinamente toda a razão e ficou à sua mercê. Foi aí, quando sentiu que ela estava sem forças, cravou-lhe os dentes felinos e sugou todo o sangue que lhe era necessário. Sugou sem dó e sem piedade... Satisfeito e com as energias recuperadas ficou a observar aquele corpo desfalecido, por algum tempo. Esperou que ela voltasse a si e levou-a para a Mansão-Hotel. Certificando-se que não foram vistos, entraram no apartamento, o dela, deitou-a na cama macia, esperou-a adormecer e... Durante todo aquele dia, Robert não fora visto em lugar algum. Milla acordou assustada procurando se livrar do pesadelo que acreditava ter sonhado. Olhou, observou o ambiente e, em tudo que mirava sentia a presença de vampiros. "Será que foi somente um sonho?" Pelo espelho da frasqueira, examinou sua pele à procura de sinais que confirmassem ou não suas dúvidas. Sentiu-se um pouco pálida e abatida. "Deve ser pela noite mal dormida. Vou ficar bem bonita e dar uma volta por esses imensos corredores do Hotel". Milla era realmente muito bonita. Seus cabelos negros e sedosos balançavam a cada passo executado. Ao adentrar-se no salão-nobre, sentiu-se fulminada por olhares curiosos e cochichos de alguns turistas. Não encontrando o que procurava e o ambiente não estava agradável para uma senhorita sozinha, resolveu voltar para seus aposentos, apanhou um livro e envolveu-se na leitura. Tremeu gelidamente quando Robert entrou pela porta semi-aberta. - Sentiu saudades de mim? - Pensei que estivesse no salão. Não gosta de jogos? - Não. Gosto de ficar com você. - Disse acomodando e agarrando-se a ela. O frio que exalava do corpo de Robert era inquietante. - Não vamos sair? - perguntou Milla disfarçando o nervosismo. - Lá fora está gelado e você não se sentirá bem. Hoje ficaremos aqui, quer queira, quer não. Dizendo isso, Robert segurou e mordeu-a sem demora e com tremenda violência. A lâmpada estourou-se e a escuridão tomou conta do espaço. Um redemoinho se formou e um cheiro acre se misturava ao ar abafado. Mesmo com pouca força, a moça debatia contra seu agressor. Conseguiu se soltar e com o crucifixo em punho gritou: - Saia daqui seu demônio. Graças a meu espelho descobri que você era um vampiro. Suma, enquanto dou-lhe essa oportunidade. - Não vou me afastar daqui. Quero você, sangue gostoso! Pretendo saciar meu desejo. Assim dizendo, revestiu toda sua fúria contra a moça. A luta foi violenta e demorada. Quando Milla já acreditava ter perdido a batalha, parte do assoalho se quebrou e Robert desceu levando cravado no peito uma lasca da madeira. - Miiiilla!!! Um grito estridente soou no recinto, vindo do sótão. |