SERÁ?
José Luís Nóbrega
 
 

- Que bonito, hein? O senhor sabe que horas são?

O marido meio cambaleante, completamente embriagado, bate a porta com força, vira-se para a mulher e tenta ver as horas. Mexe o braço pra cá, a cabeça pra lá, procura posicionar o visor do relógio em direção à luz da sala... e nada. Sem conseguir ver a hora, resmunga inaudíveis palavras, e se joga no sofá, ao lado da mulher. Fica ali, tentando fixar os olhos na TV, que insiste subir e descer como um ioiô.

- Adalberto, que cheiro de perfume barato é esse? - A mulher se aproxima do marido, roça o nariz pelo seu pescoço, descendo pelos braços.

- É da amiga do Gustinho, pô! - Diz ele, sem olhar pra mulher, enquanto tenta segurar com os olhos o aparelho de televisão que insiste em flutuar rumo ao teto.

- Adalberto, e essa mancha de batom aí na gola da sua camisa, hein, Adalberto?

Ele olha para a mulher que parece subir e descer como a TV, e sem pensar, diz com a língua enrolada:

- É... é... é da amiga do Gustinho, caramba!

- Ah, então você conheceu uma amiguinha nova hoje?! Ela lhe deu três beijinhos, e no terceiro... pimba! Os lábios carnudos dela, pintados de batom vermelho, resvalaram na gola limpinha de sua camisa social branca? E ainda por cima, a santinha é amiguinha daquele safado do Gustinho?! Você quer que eu acredite nesta estória, Adalberto?

Terminada a lengalenga da mulher, ele encosta a cabeça numa almofada. Seus olhos não conseguem mais perseguir a danada da TV que saracoteia sem parar. Já quase pegando no sono, um susto. A mulher dá um berro:

- Adalberto, e esse aranhão em seu pescoço, hein, Adalberto? Vamos, me explica, seu canalha!

- É... é... é da amiga do Gustinho, só pode!

- Não me diga!... Vai me dizer que depois do terceiro beijinho, depois de deixar a marca de batom em sua gola, a coitadinha ainda passou as unhas afiadíssimas pelo seu pescoço?! Me diga se foi isso, Adalberto?

Sem dizer nada, ele finca os dois punhos cerrados no macio sofá, dá uma tossidela pra disfarçar, e vai para o quarto, batendo as mãos pelas paredes.

No outro dia, a mulher abre a porta do quarto com furor. Acende a luz, e aos berros, exige explicações do marido, que dorme, com a boca aberta, exalando álcool pelos poros:

- Adalberto, olha o que eu achei no seu carro, seu safado! Isso é da amiguinha do Gustinho também? Me diga, seu... seu...

O marido abre só um pouco os olhos, franzindo a testa suada. A claridade parece querer cegá-lo. Olha para a porta, e só enxerga o vulto da mulher que segura algo nas mãos. Ele fecha os olhos, e enfia a cabeça novamente no travesseiro, soltando, sem hesitar:

- Não, isso aí não é da amiga do Gustinho, é do Gustinho!

A mulher estarrecida apaga a luz, fecha a porta com todo cuidado, e já no corredor, segurando uma calcinha preta pelas duas pontas, murmura:

- Minha nossa! Será que o Gustinho cabe aqui dentro dessa coisinha apertada?...

 
 
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