CARTA ABERTA AO MEU FILHO
José Luís Nóbrega
 
 

Filho, você deu trabalho até para nascer! Mas como me senti realizada com aquele trabalho! Lutei por nossas vidas, temendo mais pela sua, do que pela minha. E quando ouvi seu choro, não pude deixar de acalentá-lo em meus braços. Como você era pequeno, filho meu, e eu já o imaginava tão grande...

Nome, meu filho, você nem precisaria ter. O chamaria de meu Filho pelo resto da vida.

Apresentaria você a todos como sendo simplesmente o Filho que ensinou a mim o verdadeiro significado da existência humana. Minha vida não foi mais minha, meu filho, a partir da sua vinda a esse mundo caduco. Passei a viver a vida por você, meu filho, filho meu!

Depois vieram seus passos, seus tombos, choro pedindo colo. E sua mãe, sempre em seu caminho, levantando sua cabeça, curando seus machucados, secando seu pranto, e até chorando com você, ao ver a dor que sentia quando seus primeiros dentinhos luziram no céu do seu universo...

A primeira briga na escola. O medo da professora severa. As lições que li ao seu ouvido, vendo sua mãozinha deslizar tortuosa pela linha reta do papel. Corrigi seu "tidato" (você trocava o t pelo d, lembra-se?), dizendo que o "m" havia brigado com todas as consoantes, menos com o "p" e o "b". Não me esqueço, filho meu, da cara que fez ao me perguntar com a racionalidade infantil de toda criança: "Brigou por quê, mamãe?!" Eu lendo Peter Pan, Pinóquio, e ao final, você sempre me fazendo criar e recriar outros desfechos, indagando-me sempre: "E daí ?..." - "E agola?..." Você nunca gostou de pontos finais, não é mesmo, meu filho? Sempre preferiu as reticências...

Aí vieram os pontos finais na adolescência, seguidos de defectíveis reticências... A desilusão do primeiro amor - ponto final. A perda do pai que você e eu tanto amávamos - ponto final. Qual profissão seguir? - reticências... O que serei quando crescer? - reticências...

E então, filho meu, você passou a ser quem eu NÃO queria que fosse. Você se apresentou tão adulto, quando eu ainda imaginava que você fosse a MINHA criança. Suas baladas, suas noitadas, minhas noites sem sono, meu esperar no sofá, minha angústia de não saber por qual mundo caduco você vagava. Suas roupas estranhas, suas músicas estranhas, o seu "se trancar" no quarto, quando o que eu mais queria era ter você ao meu lado, jantando comigo.

Seu primeiro porre, sua promessa de nunca mais beber. Sua primeira overdose, sem qualquer promessa. Sua primeira internação, e eu fazendo impagáveis promessas. Seu primeiro carro destruído numa curva qualquer de um mundo veloz, caduco, e eu vendo meu filho se destruindo sem pontos finais, repleto de reticências fatais...

Seu segundo acidente, e você agora, aqui, coberto de flores, tendo a face triste, pálida, sem vida. A vontade que tenho, meu filho, é de esbofeteá-lo na frente de todos que choram como eu a sua perda, e mostrar-lhe assim o verdadeiro significado da vida que você desprezou, que você perdeu. Mas agora que é tarde, muito tarde para reticências, tendo chegado seu ponto final, receba meu último beijo, filho meu, desta mãe que tanto, tanto te ama...

 
 

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