O ÚLTIMO CIGARRO
Ubirajara Varela

Você vai ter de parar de fumar definitivamente, disse Clóvis. Não há como eu continuar o seu tratamento assim. Já falei mais de um milhão de vezes e você insiste. Toda o seu processo crônico e principalmente as crises são desencadeados pelo fumo. Sei que eu não sou um bom exemplo, pois eu uso este maldito e prazeroso tabaco, mas desta vez você vai me ouvir, ou não atendo mais o senhor. Fui claro?

Foi. Respondi pegando um cigarro e colocando o maço em cima da mesa do médico. Tome. Guarda aí. Vou levar só esse, para eu poder cheirá-lo e assim matar a vontade quando ela vier.

Gostaria que você me entendesse. Seu caso é complicado. Seu último surto foi desencadeado por um único cigarro, você se lembra?

Lembro.

Então você há de convir que estou sendo resoluto, mas com razão. O seu pulmão esquerdo já está oitenta por cento comprometido. O direito, ainda está razoável, mas pode se agravar. Vamos mantê-los assim, neste estágio, para que seu quadro não se agrave. Vai ser difícil, muito difícil mesmo. Nos primeiros meses será quase insuportável, mas garanto que vai valer a pena. Sua qualidade de vida vai melhorar consideravelmente. Você vai dormir melhor, voltará a sentir o sabor dos alimentos, sem falar no entupimento do nariz...

E o sexo?

Inclusive o sexo. O senhor terá mais aptidão, vamos dizer assim.

Está certo. Vou me esforçar. O doutor já me deu um argumento.


(***)


Como foi lá com o doutor Clóvis?, perguntou Leonora.

A mesma conversa de sempre. Tenho que parar de fumar, ou a porra do meu pulmão esquerdo já era. E pode comprometer o direito também, que já não está muito bom.

E você?

Disse que vou tentar. Deixei o meu último maço nas mãos dele. Trouxe só um cigarro, porque ninguém é de ferro. Mas não se preocupe. Não vou acendê-lo. É só para cheirar. Não é a mesma coisa, mas já ajuda.

E sua mulher, o que ela disse?

Ainda não falei com aquela megera. No mínimo vai gostar de me ver sofrendo mais um pouco. Antes era pela doença que ela me azucrinava a cabeça, agora vai ser pelo cigarro. Vai ficar em cima de mim igual político pedindo voto em época de eleição.


(***)


Chegando em casa, já entrei nervoso, batendo a porta. Heloísa veio me receber como de costume.

Já chegou?, ela disse com uma voz aguda e estridente.

Não, ainda estou lá no consultório.

Consultório? Você saiu pela manhã. Aposto que você estava com aquela vagabunda.

Não me ferra a paciência, porra. Quantas vezes eu preciso repetir que não encontro com Leonora já faz mais de um ano.

Desde que eu te peguei com aquela ordinária que não tenho mais confiança em você. E quando a gente perde a confiança é uma vez só.

Vou sair de novo, não dá para ficar em casa.

Não. Espera. Eu não toco nesse assunto de novo. Já esqueci. É que você demorou e eu estava preocupada. Você sabe o quanto eu te adoro, meu amor, e só de pensar que você pode me largar eu fico louca. Ainda mais se for por aquela mulherzinha... Desculpa. E então, como foi lá no doutor Clóvis?

A mesma merda. Falou que não me atende mais se eu não parar com o cigarro. E eu concordei.

Até que enfim, meu amor. Você finalmente criou juízo. Estou orgulhosa.

Pára. Vou tomar um banho e depois deitar.

Come alguma coisa antes.

Não. Primeiro vou pro chuveiro. Depois pode ser.

Posso te acompanhar no banho? Já faz um tempão que não transamos.

Você sabe que eu não devo por causa do meu pulmão. Tenho que evitar qualquer esforço, o doutor Clóvis me aconselhou.

Acho que você não me ama mais. Não sente mais prazer comigo?

Cacete. Lá vem você de novo. Vou tomar meu banho e dormir direto. Não quero comer nada.


(***)


O que a Heloísa falou?, questionou-me Leonora.

Ficou me enchendo o saco, como eu havia previsto.

Então esquece disso tudo e vem ficar juntinho de mim.

A campainha toca. Insistentemente.

Porra. Que merda é essa. Essa cigarra agarrou ou o quê? Você está esperando alguém?

Não. Vou olhar quem é. Pode ser alguma coisa importante.

Sua vagabunda!, disse Heloísa empurrando a porta na cara de Eleonora que caiu com o nariz sangrando. Eu sabia que vocês ainda estavam se encontrando. Puta que pariu! Onde está aquele covarde? Se escondeu no banheiro? Avisa praquele ordinário que eu o estava seguindo desde quando flagrei vocês dois, há um ano atrás. Aquela conversa toda... Vocês acham que eu sou boba. Fala pra ele que já estou indo pra casa da mamãe e não é pra ele tornar a me procurar. Saiu, batendo a porta novamente.

Flávio, pode sair, ela já foi. Vou te avisar. Eu também estou indo. Cansei dessa vida. Vê se não me procura mais também.

Espera.

Tchau, disse Leonora saindo e batendo a porta.


(***)


Chama o doutor Clóvis aí, faz favor!

Ele não pode atender o senhor no momento.

Chama logo. Eu sei que ele está desocupado. Não tem ninguém no consultório.

Pode deixar, Bete, disse o doutor. Eu falo com ele. Entra, seu Flávio. Faz favor.

A burra da sua secretária, você deveria demiti-la.

Olha, seu Flávio. Sei que a sua mulher e a sua amante largaram o senhor. Não precisa descontar sua raiva em todas as mulheres do mundo. A dona Elizabeth é uma excelente funcionária e uma mulher de virtudes imaculadas.

Você fala isso porque está comendo ela.

Vou ser obrigado a pedir que o senhor se retire do meu consultório.

Desculpa. É a ansiedade. Estou precisando fumar. Me libera aí, só um, o último.

Ainda está com aquele aí? O que você guardou pra cheirar?, perguntou o doutor.

Estou.

Toma o fogo. Pode acender. Mas é o último, hein?!

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