INSANO
José Luís Nóbrega
Atravessou a porta giratória do banco como quem atravessa uma folha de papel. Cacos de vidro foram atirados por toda a agência. Não havia razão para aquilo. Aquela campainha irritante do alarme não havia tocado. A porta não havia travado. O segurança, sem reação, permaneceu imóvel com uma das mãos sobre o enferrujado revólver. Com o corpo todo ensangüentado pelos estilhaços de vidro, o insano dirigiu-se a um dos caixas. Nem se importou com a placa que indicava que ali, somente idosos, gestantes, "amamentantes", "corantes", "acidulantes", "amantes", poderiam ser atendidos. Chegou ao guichê, e sem olhar para a caixa que permanecia atônita, deixou sobre o balcão dinheiro, cheques, duplicatas, boletos. Não disse uma palavra. Saiu do banco, passando por entre a porta giratória que acabara de arrebentar com o próprio corpo. Um pequeno prejuízo causado a uma rica instituição que muito o havia roubado.
Todo cortado, com passos lentos, olhando para o chão, causou repulsa entre os transeuntes que se desviavam daquele ser banhado de sangue. Parou defronte a uma banca de jornal.O olhar foi se desviando vagarosamente do chão até chegar aos jornais que estavam à sua frente. Olhou as manchetes parecendo não entendê-las. Passou as sujas mãos de sangue sobre cada uma delas. Um risco vermelho foi ficando pra trás, enquanto ele caminhava pela banca com as mãos sobre notícias imprestáveis.
O jornaleiro pôs-se a gritar contra aquele maluco que acabara de sujar os jornais em exposição. O insano continuou a caminhar até tocar o último jornal. Depois deixou a mão cair, permanecendo imóvel rente ao corpo. O olhar voltou-se para o chão. O caminhar lento colocou novamente em movimento um corpo vestido de sangue.
Sem direção caminhou. Caminhou por calçadas, esbarrando em pedestres desatentos. Caminhou por ruas, entre carros, frenagens, xingamentos, buzinas incompreensivas. Caminhou por estradas esburacadas. Atravessou cancelas de ladros pedágios. Cruzou o caminho de um caminhão desgovernado, de pneus carecas e motorista mal-educado.
Caminhou por entre matas, e quase sem forças,
banhou o corpo trêmulo, machucado, quase sem vida nas águas límpidas
de uma corredeira. Despertou aos poucos como quem desperta depois de uma boa
noite de sono. Sem saber onde estava, ou o que fazia ali, deixou que o banho
de cachoeira lavasse sua alma. Não se sabe se voltou pra casa, se voltou
a entrar num banco, se caminhou por entre pessoas, carros, caminhões,
se voltou a ser xingado, quase atropelado por um caminhão desgovernado.
Não se sabe se voltou a ler jornais, mas a única certeza que se
tem, é que se transformou em uma crônica imprestável...
em um deles...
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