ILUSÃO E REALIDADE
Rita Alves

Estou num lugar distante. Repleto de girassóis que não se abrem apenas ao sol, mas também a sombra. Os campos têm a cor azul em vários tons e cheiro de verbena. Ando entre eles e a estrada é tão longa que parece não ter fim, mas não me sinto cansada porque caminhar neste lugar é mágico. E como magia o campo desaparece e no lugar dele surge o mar verde e as ondas vêm até mim, não é preciso ter medo e nem fugir porque a água é morna, suas ondas são calmas e acariciam a pele como as mãos macias da minha mãe. O mar tem sabor de camomila. O sol é quente, mas não queima, ele beija a minha face com cuidado, ternura... Num piscar de olhos a paisagem muda, agora estou sozinha. É noite e na estrada não há nada, só a lua lá no alto, brilhante, sorridente, mudando de fase a cada segundo. Sinto medo, mas me divirto olhando pra ela. A lua é como eu, varia de fases, é cheia, minguante, nova e crescente. Uma borboleta vermelha pousa na minha mão e fixo meu olhar nela. Nunca vi nada igual, sua cor impressiona e quando olho pra frente estou num jardim repleto de borboletas de todas as cores. O jardim está cheio de margaridas roxas e algumas rosas verdes, tornando o cenário todo esquisito. No final da estrada tem alguém sussurrando palavras que não entendo. A lua se esconde atrás da nuvem, uma estrela cai do céu e apaga. Uma estrela igual àquela que eu desenhava no caderno quando criança. O vento bagunça meus cabelos, preciso entender o que está acontecendo, mas foge da minha compreensão. Começa a chover muito e a água que cai tinge minha blusa de lilás. Percebo que a chuva tem gosto de lágrimas. Sinto o medo percorrer a minha alma, mas não é uma sensação ruim. É como um arrepio de prazer daquele que a gente sente quando está com alguém que ama. Me sinto livre! Percebo que tem uma música tocando baixinho e de repente o som aumenta. Assusto, o despertador disparou ao som de Sade, num gesto rápido aperto o botão e a música pára. Não quero acordá-lo do seu sono tranqüilo. Será que ele também tem sonhos bonitos, estranhos? Beijo delicadamente a sua face e ele sorri de olhos fechados. Acordar ao lado dele me fez perceber que o sonho não tinha acabado. Eu nem sabia que podia a mar alguém tanto assim. Nós dois somos como meu sonho: confusos, alegres, medrosos e felizes, profundamente felizes.

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