DA SOLIDÃO DAS COISAS
Lua (Lu Oncken)
Da solidão das coisas 1
Solidão dos solitários. Solidão sem solidão. Solidão. Na imensidão. Solidão de quem não tem ninguém. Solidão por excesso de companhia. Solidão sem motivo. Solidão de perdição. Aquele vazio. O vazio das coisas. O vazio do que não foi. Do que era para ser. Do que nunca será. E do que um dia foi. Nostalgia. Solidão da espera. Amargura. Solidão dos desesperados. Solidão dos enamorados. Solidão dos abandonados. Solidão. Parece uma sentença. Solidão. Estamos condenados. Solidão. Medo. E a solidão dos condenados. Presos. Solidão. De quem ama. De quem quer ser amado. De quem um dia amou. De quem perdeu. De quem morreu. Solidão. Desespero. Não há como se livrar dela. Maldição. Solidão dos tempos. Multidão em solidão. Há solitários na multidão. Contradição. Solidão das coisas. Tudo parado. Silêncio. Solidão. Movimento. Tudo em movimento. Solidão de quem anda. De quem pára. De quem cala. De quem fala. Sem parar. Solidão. Falta dos que não estão. Dos que deveriam estar. Dos que estão ao nosso lado. Solidão. Tentamos fugir. Ela nos persegue. Perseguidora solidão. Solidão dos perseguidos. Solidão dos esquecidos. Solidão dos heróis. Solidão dos covardes. Insegurança. Impotência. Tédio. Um sentimento. Uma sensação. A fome que corrói a alma. Solidão. Um fantasma. Solidão. Estamos condenados.
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Da solidão das coisas 2
O telefone tocando, do outro lado, ninguém atende. A casa vazia. O som solitário do telefone. A casa solitária. Vazia. O som ecoa. Solitária, a pessoa do outro lado aguarda. Toca uma, duas, três, cinco, seis. Caixa postal. A voz eletrônica e solitária. Falar com o nada depois do sinal. Falar pra ninguém. Sozinha, a pessoa chega em casa. A dona do telefone e da casa, solitários. E sozinha, ouve o recado mudo. E fica no silêncio da solidão.
A companhia tocando. Não há ninguém em casa. O som solitário da companhia. Toca e toca no meio do nada. A casa está solitária. Não há ninguém do outro lado da porta. E a pessoa solitária insiste. E toca, uma, duas, três, dez vezes. Dá meia volta. E vai embora. Deixando a solidão.
Solitária, escreve uma mensagem. Deixa suas palavras num email, solitário. Dois segundos depois, não há resposta. Dez minutos depois. e ninguém responde. Passa, um, dois, três dias. Solitária, chega na casa vazia, senta ao computador, abandonado no quarto, junto à cama. Solitários, todos. E nada. A única resposta: solidão.
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