SÓ O QUERER
Anita Giacomini Novais

Quero ouvir agora o canto dos pássaros, para se assim for possível, encontrar a inteireza de meu ser.

Quero me retrair nas profundezas de minha alma, pois já não encontro respostas na minha educação acadêmica.

Quero me libertar para tudo que é leve, mas verdadeiramente substancioso.

Quero sentir um pouquinho de solidão, mas só um pouquinho, e quando necessitar dos que amo, procurá-los onde sei que serão encontrados.

Quero observar a rotina gostosa de cada ser passante, e quando o desequilíbrio estiver instaurado em minha alma e eu achar que o mundo está contra mim, encontrar o conforto de que a vida continua e está justamente do modo como deveria.

Quero sentir a dor de vez em quando para não me esquecer do que é a alegria, e quando esta estiver fazendo parte de meu dia, lembrar de que, neste exato momento, há uma vida clamando por socorro.

Quero só lembrar do cheirinho de minha infância: o café torrado no terreiro, as mangas que povoavam a estrada de terra, o cheiro da grama cortada, os pés de eucalipto que ameaçavam a casa de vovô.

Quero sentir a saudade das coisas comuns, do sorvete no final de uma tarde de verão, da retirada das rodinhas da bicicleta, do choro pelo amor não correspondido, das reflexões feitas à janela do ônibus a caminho de casa, da macarronada de domingo... até do Faustão quero sentir saudades.

Quero, agora, sentar no sofá com um saco de pipoca de microondas e parabenizar a modernidade, mesmo sabendo que a mesma me escraviza, dando-me a falsa idéia da libertação.

Quero deitar na cama e sentir a solidão do ser que é compreendido por poucos, daquele que sempre fica na cochia, preparando o terreno para os que virão, mas que busca a compreensão dos que estão ao seu redor.

Quero ser ridícula, às vezes, me fazer de fraca, pequena, e aceitar o afago de meu cão.

Quero fugir dos holofotes da vida, e parabenizar o Zé e a Maria, o Severino e a Josefina, pela luta selvagem que é a suas vidas.

Quero também o seu querer, mas que ele seja simples como a vida das plantas, como a sua respiração, longa e terna.

Quero, simplesmente, a sua existência, sem os tributos da sociedade cobradora e devedora.

Quero, neste momento, dormir, e acreditar que o amanhã será tão imprevisível como o dia de hoje, como o agora está sendo, com a ausência da intensa preocupação com a grámatica.

Quero,sim, conviver com o erross, e se pos´sivel, ser corrigida, mas agirei no meu tempo, e não no seu.

Por favor, deixem-me dormir, agora estou cansada... não, não quero tomar banho.

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