SAPATOS SUJOS
Thaís Emília
O que primeiro estranho todo dia é que o barro da estrada não gruda mais nos meus sapatos. “Ela vai ficar feliz”, penso, “quando souber que não vou mais sujar a casa toda quando chegar”. Mas na soleira da porta avisto meus sapatos sujos, as crostas vermelhas cobrindo as solas, os cadarços esgarçados amarrados ainda, numa mania que ela não me fizera perder, e só então me lembro.
Curvada sobre o canteiro nu, ela rega a terra opaca e árida, seus olhos cansados estampando o estio, as cores todas das coisas diluídas no mormaço, encapadas pela poeira antediluviana dessa terra de ninguém - terra do diabo. Escuto o barulho grosseiro da terra sedenta devorando a rega com estalidos de gula. E percebo, entre os rumores do canteiro engasgando-se, os pequeninos sons das lágrimas dela arranhando sua pele, cavando em seu rosto sulcos do percurso feito diariamente.
Caminho até ela com passadas fortes, tentando, sempre em vão, imprimir na terra úmida minhas pegadas. Aproximo-me devagar, esperando que minha sombra escureça seu rosto, e ela erga os olhos para mim e me abrace. Mas os raios do sol me atravessam silenciosamente, caindo ferozmente sobre o rosto dela, decompondo-se no prisma das lágrimas.
Despenteio então seus cabelos, como fazia todos os dias, mas ela sempre acha que é o vento, e os prende novamente, e vai deitar-se sem perceber que eu a sigo.
Ela parece ainda a mesma menina que dorme encolhida num canto, embora tenha agora a cama inteira para si. Seus olhos, entretanto, envelheceram como se fossem o próprio tempo, e suas roupas antigas têm um cheiro que desconheço.
Sob a terra encharcada do canteiro, meu corpo repousa nu no leito que ela mesma cavara. Me lembro dos pedregulhos sangrando minha carne morta enquanto ela me arrastava até o canteiro. Me lembro do esforço em seu rosto e da pressão dos seus dedos nos meus braços, do som de sua voz sozinha entoando rezas antigas, ouvidas de imemoriais antepassados. Sinto o tempo todo o contato morno do chão, a água escorrendo entre os grãos de terra até embeber meus ossos porosos, a lembrança salgada de seu choro depositado em minha língua quase desfeita.
E sei que ela espera, com a certeza vinda das previsões oraculares, que a minha podridão fertilize a terra. Que nada reste de mim senão pequenas sementes de flores desconhecidas, que romperão a terra infértil há muito, e que ela colherá e juntará à sua parca bagagem para iniciar a travessia de muitos dias rumo ao vilarejo mais próximo. E que, quando lá chegar, as flores – eu – serão abençoadas pelo pároco, e depositadas em solo santo para que minha alma possa descansar em paz. E ela voltará para casa, e achará estranho que, mesmo nos dias furiosos de vento do mês de agosto, seus cabelos permaneçam presos.
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