A HISTÓRIA DA
COCEIRA
Anna Carolina N. Fagundes
E teve aquela história da coceira. Foi quando eu trabalhei, substituindo um colega doente, como assessora de imprensa em um teatro aqui de São Paulo, não faz muito tempo.
O teatro estava com uma peça com grandes nomes em cartaz, com casa lotada todas as noites, gente esperando dois, três meses por um ingresso. Curiosa como eu sou, me espalhei pelo teatro. Fiquei amiga dos peruqueiros, dos maquiadores, do pessoal da iluminação, do cenografista, dos figurinistas... Aparecia nos ensaios e assistia a tudo das coxias, um barato. O elenco nem se importava mais com a minha presença, até me cumprimentava sem problemas.
Seria uma beleza, se não fosse a existência da diva. Ela era dos chamarizes da peça - uma atriz do tempo em que os dramas gregos estavam estreando na Grécia antiga, como diz um amigo meu.
Famosa? Sim, era, mas já fora mais. Temperamento? O pior possível. Idade? Não revelava nem a tiros, mas os cálculos mais otimistas davam uma média de 60 a 70. O rosto, eu admito, não acusava nada - era mais esticado do que salário mínimo e com maquiagem em quantidades industriais para disfarçar o que o bisturi não conseguiu corrigir.
Vaidosa ao extremo, requisitara um maquiador só para si e um camarim particular. Como o teatro era pequeno, para atender à ordem os outros atores tiveram que se espremer no outro camarim disponível - que era do tamanho de um armário de vassouras.
E isso era só o começo... Ela reclamva de tudo - dos peruqueiros, dos figurinistas, da iluminação, dos colegas de peça e "daquela aprendiz de urubu que sempre fica nas coxias" (isso era eu - ela chamava os jornalistas de urubus). Todo mundo engolia em seco, apelando para a diplomacia, mesmo que na verdade eles quisessem era pegar a velha senhora pelo pescoço e fazê-la ter uma bela vista de sua própria nuca...
Certa noite, um dos maquiadores resolveu se vingar do péssimo tratamento que recebia. Com o sorriso mais inocente do planeta, ele separou um estojo só para a senhora, com uma tal de "maquiagem especial" encomendada eu sei lá onde. Só eu não sabia o que estava acontecendo, pelo visto - porque todos os outros maquiadores e figurinistas se esforçavam para não rir quando viam o vidro da tal nova maquiagem pela frente.
A diva foi maquiada, achou o novo pó compacto "um luxo" e foi para o palco. Eu devia ter desconfiado de alguma coisa... Pois quando ela entrou em cena, ela começou a se coçar! A princípio, fazia-o discretamente, como se não fosse nada demais. Mas depois de um tempo, ela esquecera as falas e ficara se coçando desesperadamente, fazendo um escândalo condizente com o seu temperamento, para as gargalhadas do público surpreso.
Tiveram que parar a apresentação, mandar a atriz para o hospital enquanto o elenco e a equipe se contorciam de rir - o maquiador, muito malandro, tinha usado pó de mico no lugar de pó compacto!
Só sei dizer que ninguém foi demitido e a diva sobreviveu, sim, ao ataque de pó de mico, mas não fora chamada outra vez pela companhia. Aposto o que vocês quiserem que ela nunca mais deixou que ninguém a maquiasse - vaidade, que nada!
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