OU NÃO...
Regina de Souza

Disforme. Era assim que ela se considerava no início da vida. Com o passar do tempo, percebeu que esse não era o único termo que definia seu jeito estranho de ser. Era também glutona...disforme e glutona! Que sina! Comer daquela forma, só ela comia! Além disso, descobriu que era completamente diferente de todos que conhecia. Deus! Não havia nada que a identificasse com qualquer outro ser vivo que habitava o lugar, Nada mesmo. E dia após dia, foi ela vivendo assim, na certeza de que lhe restavam duas únicas possibilidades para se auto-definir: era louca ou simplesmente disforme e glutona.

Do começo ao fim foi doloroso o processo que a levou à grande descoberta. Já na tenra idade, se deparava com situações sui generis: enquanto todos trocavam incansavelmente de morada, ela preferia ficar ali mesmo, quietinha, devorando qualquer coisa verde, contanto que o domínio do espaço que já conhecia fosse totalmente seu. Em outras ocasiões, o que mais a surpreendia eram aquelas suas peles indo embora...e outra, mais outra, e não conseguia parar de pensar no que se transformaria quando as peles todas se acabassem. Tinha um medo enorme de virar um nada. Fora a sua cor!!! Quem era verde, exceto as vítimas de seu insaciável apetite? Essas, eram plantas e, até aí, tudo bem porque as plantas são mesmo verdes. Seria ela uma planta, então? Então... quando já estava muito, mas muito encafifada mesmo, algo aconteceu. 

Num belo dia de sol ela acordou com uma sensação diferente; seu corpo parecia estar um pouco adormecido e como que formigando de ponta a ponta; notou que durante aquela noite algo havia surgido em sua extremidade inferior. O quê era aquilo? Estranho...para ela foi muito complicado ter que admitir que aquela nova forma a transformava em alguém maior! E as peles? Onde foram parar? Como pode -da noite pro dia- alguém acordar sendo outro? É sonho, só pode! E ela riu às pampas de si mesma, e assim ficou rindo muito, até que uma nova protuberância começou a surgir em suas costas. Algo havia alí -pensou- contorcendo-se toda, sem no entanto conseguir descobrir do que se tratava. Fez um grande esforço ao tentar virar-se e, sem querer seus pés se afastaram do solo -leves como pluma. Surpresa, ela levitou; lembrou-se das folhas que tanto invejava, porque flutuavam ao sabor dos ventos. 

As horas passaram e ela foi testando cada movimento que lhe vinha à mente; tinha quase certeza que num gesto brusco o sonho acabaria e ela voltaria a ser o que era. Mas não foi bem isso que aconteceu, pois a lua surgiu, ela adormeceu, depois acordou sentindo-se a mesma. Agora seu peso parecia menor que o do dia anterior e quando pousou sobre a rocha do lago prá matar a sede, quase enlouqueceu! Viu algo na água que a deixou tonta de medo e prazer...eram tantas cores, muitas formas lindas bem distribuídas sobre duas asas! Ela tinha asas! Podia voar. 

E voou bem alto pousando nas flores, se fartou de um néctar que nem conhecia e de tão feliz, subiu e desceu e, se libertando, borboleteou.

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