SEÇÃO
CARTAS,
JORNAL DOS INSETOS
Pedro Grillo
Se você
quer saber, estou cansada desta história de ser maltratada por ser uma
lagarta. Mas que droga é essa de obrigação de me tornar borboleta? É puro
fascismo essa obrigação, esse sacrifício de ter que ficar presa em pleno
verão naquele casulo quente e pegajoso só para ganhar um par de asinhas.
Tá bom, tudo bem, são umas senhoras asas, e meu deslocamento não é lá
dos melhores mesmo. Agora, que saco! Me sinto tolida, sabe, minha auto-estima
já foi para as cucuias.
Só ouço que "quando você for uma borboleta", "na hora da sua metamorfose", "depois do casulo"... mas que saco! Será que nenhuma lagarta tem mesmo o direito de se manter lagarta? O que nossa sociedade tem contra as mais rechonchudinhas? É estranho, sabe, olhar para todas de nós e ver que a obrigação é ser esbelta, atlética, voar com aquela rapidez, sobrevoar as mais bonitas flores, etc etc etc... Urgh! Me enoja isso. Será que ninguém nessa natureza entendeu que devemos ser democráticas? Diversificadas? Tá bom, eu posso me transformar em borboleta, mas alguém me perguntou se é isso que eu quero? Vamos, pensem vocês insetos, pensem nessa ditadura da beleza aqui no jardim onde moramos. As minhocas - nossas semelhantes - nem podem dar as caras, ficam debaixo da terra. Os grilos, basta serem observados, para que pulem. As cigarras cantam, mas ninguém nunca sabe onde estão. As formigas, essas aparecem, mas são tantas que ninguém nunca pôde apreciar uma delas. As abelhas dão medo, todos correm. O mesmo com os marimbondos, com os besouros, com as aranhas... Já perceberam? Só as borboletas é que são apreciadas. Adivinha quem são as escolhidas para as cenas românticas dos filmes? imagens bonitas, pessoas se amando, tudo lindo, e, pronto, lá estão elas fazendo figuração! NÃO AGÜENTO MAIS!!! Precisamos nos unir, insetos! Todos nós contra elas. Inclusive nós, lagartas. Se vocês não perceberam ainda, nós somos obrigadas a nos tornar borboletas, ninguém nos deu o direito à escolha! Basta! Isso acaba nos fazendo nos sentir péssimas. Ou alguém não vai pensar que ser lagarta é ruim se o rito obrigatório nos transforma, muda completamente quem somos? E a minha análise, alguém paga? Paga? Ninguém pensa na nossa crise de personalidade. Ninguém nem dá bola para a gente. E não digo isso para as lagartas, digo para todos. É por isso que fomento cada um de vocês a levantar suas armas contra essa ditadura. Chega! Chega das borboletas serem o modelo de beleza. Levantem suas patas, joguem folhas contra elas. Lagartas, abandonem seus casulos. Vamos acabar com essa mania de escolher as heroínas e delegar pras demais postos inferiores. Chega de olhar para a televisão e só vê-las! Queremos realidade, queremos o fim dos estereótipos. Os marimbondos, por exemplo, eles também amam, pô! As vespas não podem ser renegadas. Há de ter espaço para todo mundo nessa droga de sociedade. Nesse quintal. Caso contrário, vou-me embora e faço uma revolução. Se não mudarmos aqui, eu me mudo. Chega! Dona Lagarta, folha 113-Nordeste, goiabeira 12. |