DETALHES
IMPERTINENTES

Fábio Fujita

Muito provavelmente por ser professor de História, aquela coisa toda de disposição por marcos e períodos, Júlio passou a dividir as mulheres entre antes e depois da Maryeva. Formalmente. Quem o conhecia, fazia de tudo para incutir nele a idéia de que as outras mulheres do planeta também têm aquele permanente cheiro de shampoo, seios e barriguinha, mas Júlio era de uma absoluta fidelidade. Nunca se soube bem do quê, afinal, mais do que o fato de Júlio ser professor de História num colégio localizado na pacata cidade de Brodówski, e a Maryeva ser de Floripa, dele não se podia dizer que fosse exatamente um clone do Brad Pitt, e também não há notícias de que, em algum momento, ele chegou a ser confundido nas ruas com o Rodrigo Santoro. E a Maryeva, embora isto pareça um tanto redundante, é a Maryeva.

Os amigos mais próximos só perceberam se tratar de obsessão quando nem a Carolina Dieckman fez despertar em Júlio qualquer demonstração de entusiasmo.

- Júlio, você viu o ensaio da Carol Dieckman na Playboy? Ela é maravilhosa...

- Quem?

- Aquela da novela. Edivirges...

- Não, nem quero.

Por tudo isso, quando souberam que Júlio havia comprado bilhetes para Floripa, os amigos temeram o pior. E o argumento para a viagem, que Júlio considerava absolutamente justificável, era de que queria "apenas comprovar se ela existe mesmo". Tão perfeita daquele jeito, pode ser que seja de mentira, imaginava.

- Como assim, Júlio?! - inconformavam-se os amigos, com socos na mesa e palavrões que não vêm ao caso.

- Ora, quero saber se ela não é uma mera invenção publicitária. Vocês sabem, vivemos na era da mídia, então pode ser que o Washington Olivetto... 

Não deixavam terminar a explicação. Porque definitivamente não, o Washington Olivetto não inventou a Maryeva, inferno. Acontece que Júlio queria ter certeza. 

Os amigos, afinal, deixaram Júlio viajar, mas com a condição de que fossem todos. 

Foram.

Só encontraram a Maryeva no terceiro dia, na praia Mole, ela tomando um solzinho de final de tarde. E a encontraram não por causa dos três brutamontes às costas dela, provavelmente seguranças, mas porque era uma criatura maryevamente divina. Não é que Júlio tinha uma certa razão?, pensaram simultaneamente os amigos, sem comentarem isso uns aos outros.

E nos centésimos de segundo de distração deles, Júlio antecipou-se e ficou postado ao lado dela. Firmou o seu dedo indicador no ar e cravou um toque obtuso contra o braço esquerdo da moça.

- Ei - disse Maryeva, tirando os óculos escuros, surpresa com o dedão atrevido de Júlio.

Assim que se recuperou do impacto do olhar dela, Júlio, num êxtase meio difícil de descrever, começou a falar em voz alta, num tom que podia ser pergunta ou afirmação:

- Você existe! Você existe? Você existe! Você existe! 

A Maryeva até pensou em responder sim, existo, mas achou que isso seria compartilhar da esquizofrenia, idiotice, ou do que quer que fosse que aquele coitado sofria. Júlio, então, para confirmar mesmo a existência dela, pediu que ela o deixasse ver a borboleta. 

- Borboleta? - estranhou a Maryeva.

Referia-se à tatuagem de borboleta que ela supostamente deveria ter na parte baixa das costas, pouco acima do bumbum, conforme as fotos de todos os ensaios. Antes que pudesse explicar tudo isso, os três brutamontes, que se confirmaram seguranças, pegaram Júlio pelos braços. Enquanto o arrastavam, Júlio, avistando ao longe os amigos, bradava, convicto: 

- Estão vendo! Não tem borboleta! Ela é uma farsa! Não tem borboleta! É Photoshop! O Washington...

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