AMANHECE
AINDA ASSIM

Anna Carolina N. Fagundes

Shattered dreams, worthless years,
Here am I encased inside a hollow shell.
Life began, and then was done;
now I stare into a cold and empty well.
The many sounds that meet our ears, the sights our eyes behold
will open up our merging hearts,
and feed our empty souls.
(Stevie Wonder, "I Believe")

Outro daqueles amanheceres gelados nas ruas de São Paulo, e mais uma noite passada em claro, rodando pelas perigosas ruas do centro procurando alguma coisa para fazer. Naquele tempo perdido na bruma - entre a imposição do AI-5 e a morte de Vladimir Herzog, depois da separação da esposa e antes de reencontrar a mulher com quem teria sua única filha - Mateus Capriati rodava com um Fusca verde-pálido, que um amigo apelidara de "Horácio", como o dinossauro do Maurício de Souza. 

Era o tempo em que ele sofria de uma insônia atroz, que o deixava acordado por às vezes bem mais de vinte e quatro horas. Era o tempo em que ele se contentara em viver sozinho, preferindo a sua própria companhia à tristeza de Soraia, sua ex-esposa, católica praticante que se amargurava pelo fato de não ter filhos. Naquele tempo não havia o divórcio, o casamento precisou ser anulado (e fora, inclusive na Igreja, de livre acordo entre os dois). Era o tempo em que o escritório de advocacia não estava indo bem. Era um tempo nebuloso.

Cansado de andar por aí, em cafés e bares pela madrugada afora, procurando o sono ou algum sucedâneo (lembrava-se de Macbeth, que não conseguia pregar os olhos por causa da culpa por ter assassinado seu rei), cansado de respirar o ar pesado de São Paulo, cansado de temer por seu pescoço por causa dos militares, cansado de estar vivo em tempos tão ruins, Mateus pensara sim em morrer. Seria a solução tão almejada - dormir para sempre, dormir para nunca mais acordar para aquele mundo tão desesperador e sombrio. 

Pensara nos pais, que tinham partido há tão pouco tempo; pensara nos amigos que sumiram com as sombras do regime militar, e todos aqueles que renegavam a fé-de-ofício dos advogados para salvarem a pele, e deixarem homens e mulheres mofarem nas prisões, legais ou não - como aquele homem que ele vira, naquela delegacia, não fazia tanto tempo; aquele homem cuja face Mateus não se esquecera, cujos olhos ele não conseguira apagar da memória. A porta se fechara, e Mateus nunca mais vira o homem. 

Estacionara o carro perto da Praça da República, e pôs-se a observar o movimento que começara a aparecer no local. Para as sombras seguiam as ditas "criaturas da noite" que coalhavam as calçadas - as prostitutas, os bêbados, os boêmios, os que não tinham medo de prisão. Mateus não sabia como se classificar - ele tinha medo de ser preso, sim. Ser advogado não era garantia nenhuma em tempo nenhum, muito menos naqueles dias. 

Ia ligar o carro para ir embora quando deu de cara com uma borboleta, parada na direção. Por onde ela tinha entrado, Mateus não soube precisar bem - mas lá estava ela, dourada e laranja, preguiçosamente mexendo as asas no parco fio de luz que batia dentro do Fusca. Capriati observou o bicho, surpreso - há quanto tempo não via borboletas, e tão de perto? 

Ficara com medo de pegar aquele bicho tão delicado nas mãos e tirÁ-lo de seu lugar. Aquela borboleta parecia tão bem ali, aquecendo-se com o fiapo de sol que se atrevia a sair das nuvens. Parecia que, quando era mais jovem, havia mais bichos como aquele no mundo. Será que a poluição estava acabando com eles, ou era ele que não tinha reparado? Mas quem repararia em borboletas, com o mundo como estava? Quem era capaz de olhar para o chão, quem tinha tempo de encarar estrelas?

Quem, a não ser ele? 

Abriu a porta do carro, uma lufada de vento varreu a poeira de dentro do Fusca, e lá se foi a borboleta, um pouco desajeitada, na direção da praça. Mateus a observou indo embora, sorrindo distraído. Parecia mais leve e estranhamente cansado, com sono. 

Entrou novamente no carro, pensando em tudo o que tinha acontecido, em todas as noites rodando pela cidade atrás de algo que o fizesse morrer, e encontrara algo que o fizera viver. Devia ser algum sinal para continuar rodando por aí. Se todas as noites um dia terminavam, por que não aquela longa madrugada de sua terra? Por que não?

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