PAGANDO MICO COM UM
MICRO
José Luís Nóbrega
Uma e meia da madrugada, exaurido após um dia de muito trabalho, não conseguia concatenar mais nada. Mesmo assim, com muito esforço continuava digitando na frente de uma tela que parecia diminuir cada vez mais o tamanho das letras.
Com os olhos pesados, por instantes achou que havia adormecido. Por mais que digitasse, por mais que tentasse dizer para o monitor imprimir uma vírgula sequer, não era atendido. Chegou então à triste conclusão de que o programa havia “travado”. E o que é pior, havia perdido grande parte do trabalho até então digitado.
Tentou ainda um “control+alt+delete”... e nem assim a máquina deu um sinal de vida. Respirou fundo, levantou-se olhando bem fundo nos olhos do monitor para ver se este esboçava uma reação de medo, e voltasse a viver. Esforço em vão. Tudo continuava... “travado”.
Foi até o lavabo, lavou o rosto por centenas de vezes na tentativa de acalmar-se. Olhou sua testa no espelho, e viu que ali não havia uma placa com os dizeres: “Sou um otário”. Começou a rir de si mesmo, e uma ira incontrolável invadiu seus pensamentos.
Passou a lembrar de tudo que havia passado com aquele bendito computador. Por centenas de vezes se viu obrigado a desmontar todos aqueles fios que parecem saídos de um filme de ficção científica, ligados ao corpo de um Frankestein. Lembrou-se de todas as vezes que arrastou aquela máquina do escritório até seu carro, e do carro até a loja de assistência, situada a mais de três quadras. Reviveu palavra por palavra dos inúmeros “consertadores de computadores”, ditos “técnicos em computação”, os quais pareciam camelôs da rua 25 de março, especialistas na arte de vender todo tipo de porcaria, sem saber ao menos como essas porcarias funcionam. Voltou à realidade e estava ali, olhando para a testa no espelho, se sentido humilhado pelo computador, e roubado por todos aqueles estelionatários da paciência humana, que fuçam em computadores, sem saber nem mesmo onde se encontram suas próprias... fuças.
Voltou ao escritório, religou a máquina, aguardou toda aquela tapeação de que o programa antivírus estava sendo conectado (passou a mão pela testa para ver se a placa de otário já havia chegado – os programas antivírus eram criados por aqueles... que criam os vírus!). Mais alguns segundos e a mensagem de que o scaner também estava sendo conectado, etc, etc, etc. Bom, já com o rosto ruborizado de raiva, voltou a digitar seu texto.
Olhou para o canto da tela para ver as horas, e ao voltar os olhos para o texto... Travado! Uma frase do Paulo Coelho passou como um flash por sua já atordoada mente: “Existem momentos na vida em que a única alternativa possível é perder o controle”. (Brida) Não teve dúvidas, e virou a mesa na perfeita acepção do termo. Monitor, impressora, scaner, mouse, tudo foi lançado da mesa num ato de desespero. O pior é que mesmo depois de ter virado a mesa, o CPU ainda continuava apitando, irritando seus ouvidos e acabando de vez com sua paciência. Passou a chutar a máquina, e esta ainda apitando. Parte do CPU quebrou em pedaços, assim como a canela do seu agressor. Ambos exaustos se acalmaram. A máquina parou de emitir aquele som irritante, e seu agressor sentou-se, com uma dor tremenda na canela direita.
Fechou a porta do escritório e foi dormir. Dias depois voltou a ligar o computador, que após haver apanhado, nunca mais travou. Os bisbilhoteiros da computação dizem hoje que o problema foi devidamente solucionado. Com a destruição da caixa do CPU, a máquina passou a se resfriar naturalmente, e que toda problemática devia-se ao fato da ventoinha não estar funcionando. Dinheiro, paciência, canela, tudo gasto por uma simples pecinha, que jamais havia sido cogitada pelos messias da informática.
Até hoje nada foi consertado (nem mesmo a canela), mas o que intriga a todos é a presença de uma bota de cano alto ao lado da escrivaninha do computador. Estão achando que o maluco comprou alguma fazenda, e que não quer sujar os sapatos de barro. A verdade é que ele não quer correr mais riscos. Como um verdadeiro consertador de micros, precisa estar devidamente paramentado em caso de reparos fora de hora.
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