(DES)ENCONTRO
Rafael Belincanta
“Te encontro às oito horas na frente do cinema. Bjos”.
Com esse torpedinho Gabriela ratificou o encontro marcado na noite
anterior.
A melodia não deixou dúvidas. Chegou mensagem. E é da Gabi. O celular do Léo
estava programado para identificar ligações, ou mensagens, ou qualquer outra
coisa que possa ser lida (!) no visor. Agora é assim, celular não é só para
falar. Dá até para receber informações em primeira mão. Dá também para...
Ele criou uma grupo só para a Gabriela: “Amorzinho”. Telefone do trabalho,
de casa, celular, e-mail wap, orelhão da esquina. Ah, sim! A melodia era uma
balada romântica do Roxette. A música do relacionamento. Quem é que não tem
uma música “do namoro”?
...spending my time, watching the days go by... Há doze anos eles tinha
dançado, coladinhos, na festinha americana da Denise, hoje colega de trabalho
de Léo. E desde então nunca mais se desgrudaram.
Léo amava receber mensagens no celular, principalmente se fossem da Gabi. Leu
com atenção e pensou olhando para a foto da Gabi grudada no monitor do
computador:
- Bom, saio do trabalho às sete, daqui até o cinema ...hum... no máximo
quinze minutos. Dá tempo!
Num instante ele já estava concentrado no trabalho. Envolveu-se demais para uma
sexta-feira. Já são oito horas.
...spending my time...
“Onde vc tá????????”, digitou nervosa Gabriela.
“Tôp na fila do etacionmeto. Econtrei a Denijse. Ela vai com abgente.”
Léo tem uma certa dificuldade para usar o teclado do celular. Ele diz que seus
dedos são muito grandes. Tudo bem. Mas não é mentira, ele realmente estava no
carro, esperando. Mas não na fila do cinema, e sim para sair da empresa.
- Denise, deixa eu te explicar a situação... E só você pode me ajudar. Se
alguma coisa der errado, diga que fomos obrigados a ficar até às oito horas no
trabalho. Léo argumentou, prevendo que alguma coisa não sairia tal como fora
combinado.
- Tudo bem, já entendi, resmungou Denise enquanto aproveitava a fila para
retocar o batom, o rímel, o blush, o cabelo, as unhas e falava ao
celular.
- Léo, como são oito e meia e nós já perdemos a sessão, vou ligar para uns
amigos que estão no barzinho e dizer que eu, você e a Bibi vamos para lá,
tudo bem?
- Legal Dê, vamos sim. Vou avisar a Gabi.
“Amorznho, já perdmos a sessaao. Vmos no barzinho com aa Dê. Espera ali na
frnte”. Léo digitou aliviado. Mas nem deu tempo.
...watching the days go by...
“Vou com o Ju, ele tb perdeu o cinema. Nos encontramos no barzinho. Bjos.”
- O quê ela escreveu, perguntou Denise.
- Adivinha quem ela encontrou que também perdeu a sessão e também está indo
para o barzinho?
- Quem Léo, quem?
- O Ju!
- Aiiiiiiiiiiiiiii, meu cabelo está horrível. Será que ele vai perceber?
Denise acabou de se “retocar” quando Léo passava em frente ao
barzinho.
- Nossa, como isso aqui tá cheio, lamentou ela.
- É verdade. A Gabi não gosta de lugares com muita concentração humana,
alertou Léo.
“Amorrznho, o bar tá lotdo. Vams parar lá no Quiosque”.
Gabriela, curta e grossa, respondeu.
“Tudo bem”.
- Dê, perdi toda a vontade de sair. Quando chegarmos lá você entra no carro
do Ju e diz para a Gabi vir para cá.
Denise não respondeu, estava muito ocupada passando fio dental. Léo encostou o
carro e logo em seguida Ju fez um sinalzinho de luz atrás. A troca foi feita.
Léo e Gabi foram para casa. Denise e Ju não se sabe para aonde, apenas
suspeita-se.
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