CATA-VENTO
Jayson Viana Aguiar
Não adianta reclamar do trânsito das grandes cidades. Cada vez mais aumenta o número de veículos em nossas ruas, e até pensamos que cada carro que passa por nós é apenas para aquele já e para nunca mais. Um Uno branco possui inúmeros clones e, mesmo que cruzemos com um mesmo Uno branco acreditamos ser ele outro. A não ser que um carro tenha uma peculiaridade que o torna único, inconfundível.
E assim é com um jipe que, toda manhã, sai no mesmo horário que eu. Os alunos que vão nele seguem para um colégio próximo ao meu trabalho. O que o torna único é que um dos alunos que está no jipe faz todo o percurso segurando a cabeça na altura dos ouvidos, como um dos macacos, em versão albina, do trio não vejo, não falo, não escuto.
Todo o dia é a mesma coisa. Claro que sempre me perguntei o motivo daquilo e elaborei uma porção de hipóteses: pensei que talvez o rapaz sofresse de fortes enxaquecas e que segurar a cabeça amenizasse a dor; quem sabe não fosse labirintite, ou dor crônica de ouvido; supus que talvez ele tivesse orelha de abano seguido de trauma, e que, segurando as orelhas, elas voltassem para o lugar mais normal; podia ser ato de reflexão ou penitência; talvez ele tivesse estudado para uma prova na véspera e segurava a cabeça para que o agito do jipe não embaralhasse as fórmulas de física no seu pouco entendimento.
Porém, houve o dia do esclarecimento.
O jipe trafegava à minha frente e fez, repentinamente, uma manobra defensiva. O macaco albino surdo teve que tirar a mão dos ouvidos para se segurar. Reflexo, claro. Qual não foi minha surpresa ao ver o cabelo do rapaz catar o vento com a conseqüência de juba de leão. Ele não segurava a cabeça ou as orelhas, mas o penteado.
Só não sei se, naquele dia, ele encarou a paquera da escola com o cabelo assanhado ou fez seu pai voltar para deixá-lo em casa.
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