UMA JANELA PARA
APIPUCOS
François Porpetta
Foi numa terça-feira, disso me lembro muito bem, era final de julho, época de muito vento aqui no Recife, e para não perder o hábito resolvi tomar um cafezinho expresso ao final da tarde, só que resolvi introduzir uma novidade e mudei de shopping, fui para um em Casa Forte. Bastou isso para a vida me apresentar a uma janela e um bairro cheio de história e do qual não conhecia quase nada a respeito.
Estava eu despretensiosamente descendo os últimos degraus de uma escada, quando olhando em frente vi uma janela: não uma janela comum, essa era muito especial, e que piscava para mim! Cintilava, como luzinhas de árvore de Natal costumam fazer.
Ela se iluminou para mim, juro! E de tão incomum, não ficava numa parede, como a maioria das janelas mortais, ficava numa tela, era um quadro!
Travei em frente à tela com a janela. A tela todinha era só uma janela. Não havia a construção toda, apenas uma janela, e fiquei durante longos minutos sonhando, estático, em frente à janela, quer dizer, em frente à tela.
Será que essa janela existia mesmo, ou seria só uma imagem criada pela mente de um pintor? Se existisse quem e quantas coisas teriam sido vistas através dessa janela, de dentro para fora e de fora para dentro?
Voltando à vida real, me dei conta de que no meio do corredor do shopping havia uma exposição de quadros, todos para serem leiloados em prol da reforma da Igreja de Nossa Senhora das Dores, mais conhecida como Igrejinha de Apipucos, construída em 1645. Para quem não conhece, é bom informar: Apipucos é um bairro super charmoso, dos mais antigos, e fica próximo a Casa Forte, aqui no Recife – Pernambuco.
Alguns apaixonados pelo local tiveram a nobre idéia de sugerir a alguns pintores do Recife que escolhessem um ou mais temas, entre os casarios de Apipucos, ou a própria Igreja, e os transformassem em telas para serem leiloadas em prol da reforma da Igrejinha.
Uma atendente me garantiu que a tal janela existia sim, e ficava numa casa próxima à Igreja. Para mim bastou, saí de lá sonhando com a tela da janela pendurada na parede da sala de meu apartamento. Imediatamente dei o lance inicial, que era o mínimo, de cento e cinqüenta reais, por escrito, deixando nome, endereço e telefone, pois assim seria até o dia e hora do leilão final. Se alguém desse outro lance, eu seria informado.
Só aí me toquei que nunca tinha tido um quadro em casa, e que maravilha seria colocar uma janela no meio da parede da sala, como uma saída para qualquer lugar que se quisesse escapar. Ainda mais, eu nunca havia participado antes de um leilão – algo me dizia que grandes emoções estavam por vir.
Dia marcado para o leilão final, após vencer um tenebroso congestionamento, consegui chegar ao shopping faltando um minuto para terminar o prazo final para os lances. Um minuto, isso mesmo, de relógio, e não havia prorrogação!
Havia, isso sim, um amontoado de pessoas em volta da “leiloeira oficial”, que mais parecia estar sendo massacrada por duas distintas mulheres que se digladiavam por uma tela, em altos brados! Pasmem, era exatamente pela tela da janela! Tinha de ser justo essa? Não era nem uma das mais bonitas, e nem uma das que tinham recebido os maiores lances, mas as duas mulheres queriam exatamente A Janela de Apipucos.
Logo que fui me aproximando, a “leiloeira” foi logo dizendo:
– Pronto, lá vem ele!
Foi o suficiente para uma das duas mulheres ficar toda revoltada. Ela bradou durante uns dez minutos que o martelo já havia sido batido, que ela se retiraria e não compraria nenhum dos quadros - estava levando dois, a abonada -, berrava, exigia seus direitos. A coisa estava ficando feia.
E a "leiloeira oficial", tão fofinha, uma senhora muito legal, repetia que o prazo não havia sido esgotado, havia um minuto ainda quando eu cheguei, e que elas estavam no processo de disputa do quadro juntamente comigo. Ela dizia: "Ai meu Deus, eu nunca fiz leilão na vida..., e agora?"
E eu calado, só rindo. Demorei uns instantes para entender a situação: havia uma disputa entre a primeira mulher - que até o dia anterior não havia dado nenhum lance e portanto era pessoa desconhecida na história - e a segunda, mais resignada e que se não desse certo, levaria outro quadro de bom grado.
No caminho para o leilão eu havia feito minhas contas e cheguei à conclusão de que não poderia dar nenhum lance superior a cento e sessenta e cinco reais. Numa rápida olhada na ficha, a coisa já andava em duzentos e quarenta reais. Eu estava fora, mas não disse nada. Deixei a dita cuja se esgoelando - desculpe, mas eu não resisti, estava bom demais.
Num determinado momento, achando que a coisa já estava perigosamente descambando para o terreno da baixaria , bati a mão na mesa e exigi os meus direitos, afinal de contas cheguei dentro do horário e tinha o direito de participar do leilão com meu lance. E fui categórico. A mulher gelou, hoje fico com remorso, mas na hora, por dentro, eu morria de rir. Todo mundo dava como certo que eu levaria aquela tela, pois ninguém gostou dela mais do que eu.
E, sempre muito sério, disse à “leiloeira oficial”:
— A senhora não poderia ter batido o martelo, mesmo porque não trouxe martelo algum! Cadê o martelo? Não tem martelo!
Todo mundo ficou assustado e houve um silêncio geral.
E continuei:
— E tem mais, o meu lance é o mesmo de antes. Desculpem, mas eu não posso aumentar, portanto parabéns aos felizes compradores e à Paróquia da Igreja de Apipucos que conseguiu levantar uma bela grana!
O povo morreu de rir. A mulher fez um cheque, levou duas belas telas para casa, sem saber que brigou um montão e o meu lance máximo era menos da metade do dela.
Dona mulher, seja feliz com os seus quadros, e obrigado por ter ajudado na reforma da Igreja de Apipucos.
Eu também estou muito feliz, pois da maravilhosa tela de Carla Canha - que eu não conheço e nem sei quem é, mas tem muito talento -, eu já levei tudo o que precisava. O beijo em minha alma.
Na falta da tela, não fiquei sem a Janela de Apipucos, e a divido aqui com vocês. No domingo seguinte, pela manhã, fui à caça da janela, e não foi difícil de achá-la, na parede da frente de uma bela casa, ladeada por um reconfortante jardim, bem próxima à Igreja de Apipucos. Essa foto aí de cima, tirada no mesmo ângulo em que a artista trabalhou, tenta reproduzir o quadro — e justiça seja feita, a tela era muito mais bonita.
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