MISÉRIA
COMO HERANÇA
Francisco Córdula
As imagens se seguiam,
acompanhando minha viagem, por aqueles caminhos secos e quentes, a paisagem
desoladora, só miséria, fome, falta de perspectiva. Tudo tão real e ao mesmo
tempo surrealista.
Já viajava há horas, sem descanso, cada vez mais desolado com que via.
Estava envolto em meus pensamentos sobre os contrastes e a discrepância, quando
chego a uma pequena cidade - na verdade, um lugarejo, só duas ruas, mas que
nesta região se tornam cidades, por que será? - estaciono o carro e entro num
boteco, peço um refrigerante, olho em volta, crianças maltrapilhas, descalças,
mulheres jovens envelhecidas pela vida, homens de sorriso amarelo, entre o
conformismo e o desespero.
Vejo uma menininha sentada em um batente, atrás da saia da mãe, me olhando
desconfiada, temerosa. Fico tentando adivinhar os pensamentos deste pequeno ser.
O que pensa uma criança que sobrevive nestas circunstancias? Isto quando
sobrevive.
Muitas não chegam nem a 1 ano de idade, outras tantas nem aos dois. Também o
que esperar? Não da para ter uma expectativa de vida melhor, numa situação
destas. Por isto muitos deste lugar já entregaram suas vidas nas mãos de Deus,
esperando, talvez um milagre divino para tirá-los desta triste situação
desumana e desigual. Desta desconsideração, de serem tratados como "cidadãos?"
de segunda categoria, sem direitos. Como mendigos, pedintes recebendo doações,
esmolas mesmo, como se fossem inválidos.
É muito triste e humilhante, pensar que se trata de um circulo vicioso. Uma
situação que passa de pai para filho. É a herança da miséria, e neste
contesto fico pensando na menininha sentada no batente, que dificilmente poderá
sonhar com um futuro muito melhor que o de sua mãe. Quando chegar aos 20 anos,
aparentará 50 e já estará cheia de filhos. É a paga dos políticos, que
fazem este povo sofrido de alavanca para seus vôos de poder e cobiça.
***
Ah, se eu pudesse, num passe de mágica mudar esta situação desoladora que perdura por décadas. Mas infelizmente não existem mágicas. Somente ilusões.
Temos sim é tentar mudar este
quadro, que é difícil de ser alterado mais não impossível. Somente com educação,
saúde e colaboração de todos é que se pode acabar com esta pouca vergonha
nacional.
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