FORÇA
DA SIMPATIA
Lula Moura
Você acredita em SIMPATIAS?
Seriam apenas crendices da cultura popular ou elas realmente funcionam?
"Eu não acredito em Bruxas, mas que elas existem, existem", diz o lugar-comum, que embora seja comum, não lembro de que lugar...
O famoso humorista-apresentador Jô Soares costuma dizer em seu programa de TV, quando o papo é sobre um assunto transcendente, que se a caneca disser pra ele: - Bom dia, Jô! Ele prontamente responderá: - Bom dia, Caneca! (e tudo bem...) Numa alusão de que se deve questionar as coisas, mas é preciso estar aberto ao desconhecido...
Anapolina, um dia desses, no milênio passado:
Alice era uma jovem cuja beleza não fazia parte do, por assim dizer, normal padronizado. Daquelas que os outros dizem: - Ah, ela é muito feiosinha pra ele. Esta crueldade do "aparente-precipitado" a deixava triste, baixando sua auto-estima. E olha, ela tinha seus encantos (todos temos), mas não se dava conta.
Um dia, e sempre tem um dia, o coração de Alice se viu atraído por Marcos, um rapaz que gostava de música clássica e acabara de se mudar para as redondezas. Marcos não tinha namorada, o que era um ponto a favor, mas Alice, com sua confiança afetada, não conseguia chamar a atenção do rapaz, que passava e não a notava.
Já sem esperanças, a jovem contou o seu drama para sua amiga e confidente Zuleica, que após ouvi-la atentamente, fechou a boca e, olhando-a com aquele olhar de quem acaba de ter uma grande idéia, disse o seguinte:
- Alicinha, seus problemas acabaram! Nada ocorre por acaso. Acabo de vir lá da banca do Seu João Carlos onde avistei um livro que ensina como fazer SIMPATIAS. Tem simpatia pra tudo, quase comprei...
Alice não pareceu muito animada com a idéia:
- Ô Zu, não tenho certeza se é uma boa.
Zuleica insistiu:
- O que tu tens a perder? Custa tentar? Compre o livro e experimente...
A disputa de argumentos prosseguiu e Alice, tomada pelo pessimismo gerado por sucessivos fracassos, fechou a questão, e topou. Foi lá, comprou o livro na banca do Seu João Carlos e sentou com Zuleica para, juntas, escolherem a SIMPATIA mais adequada:
- Alicinha faz essa aqui olha, disse Zuleica após folhearem várias páginas do livro:
PARA ARRUMAR UM NAMORADO - Escreva o nome da pessoa que você quer namorar numa fita azul. Na quinta-feira de Lua Nova, ao amanhecer, amarre a fita na coxa da perna esquerda e deixe-a amarrada o dia todo. Ao anoitecer, conte sete estrelas no Céu e faça seu pedido, olhando para as mesmas. No dia seguinte, logo pela manhã, amarre a fita nos pés da estátua de Santo Antônio. Depois, é só aguardar o resultado.
Alice então partiu para a ação. Fez tudo como estava no livro...
Esperou uma, duas, três semanas e nada. O tal Marcos passava pra lá, passava pra cá e nem olhava.
Desanimada, comentou com Zuleica:
- Amiga, não tem jeito não. Comigo não funciona.
Zuleica, mais otimista (ou teimosa), insistiu. Pegou no livro e disse:
- Alicinha não vamos parar na primeira, né? Peguemos outra. Olha, vai nessa aqui:
PARA ARRUMAR UM NAMORADO - Pegue algumas gotas de azeite de oliva; folhas de ciprestes; e algumas gotas de perfume de laranjeira. Misture tudo, em uma pequena vasilha, muito bem. E guarde. Toda vez que você sair, passe um pouquinho dessa fórmula sobre as sobrancelhas.
Alice resolveu tentar a segunda simpatia. Fez tudo como estava no livro...
Passava a mistura na sobrancelha e ia ver se encontrava o Marcos pelas redondezas. O cara parecia até que não tinha olfato. Não estava nem aí... Repetiu uma, duas, três vezes e nada. Novo fracasso. Alice desistiu...
Vida que segue...
Os meses se passaram e, numa dessas coincidências do destino, Marcos e Alice estavam trabalhando no mesmo local, uma Fábrica de Roupas famosa na região. O Setor de um era seguinte ao do outro, na linha de produção. A atração dela por ele tinha esfriado um pouco, o que a deixou mais à vontade para uma simples relação de amizade.
Fora dos anseios do coração, nas relações comuns, Alice era uma pessoa muito alegre e, sobretudo bem humorada. Espirituosa, podemos dizer. Esse lado de Alice começou a cativar Marcos, que ria sempre das colocações engraçadas da companheira de trabalho.
Um outro dia, e sempre tem um outro dia, depois de pensar muito sobre o assunto, sem desconfiar do que ocorrera tempos atrás, Marcos resolveu abordar Alice:
- Posso falar com você?
Alice concordou, surpresa:
- Tudo bem, fale.
Marcos prosseguiu:
- Desculpe Alice, é que, não sei se você vai concordar comigo, mas tenho notado que há entre nós uma certa simpatia...
Alice interrompeu-o de maneira abrupta:
- Tem o que?!
Marcos prosseguiu:
- Simpatia. Afinidades entre pessoas, que faz gerar uma atração. E, além do mais, perdoe-me o trocadilho, você é uma pessoa extremamente simpática. Então pensei, que poderíamos sair um dia. Veja bem, não quero precipitar nada. É só uma saída. Vamos?
Alice olhou-o atentamente (sorrindo por dentro), e falou:
- Claro que sim, Marcos. Claro que sim.
E pensou:
- Se soubesse que a simpatia necessária era esta, não teria gasto dinheiro com aquele livro.
Marcos ficou satisfeito, sem nem desconfiar que Alice esperava por este convite, já havia algum tempo...
O encontro aconteceu e eles começaram uma relação que tinha tudo para dar certo: acaso, simpatia recíproca, simplicidade, etc...
Vida que segue...
As semanas se passaram e Alice esbarrou na rua com sua amiga Zuleica, a quem passara a ver com menos freqüência depois que ingressara na Fábrica:
Zuleica: - E aí Alicinha, como andam as coisas?
Alice: - Tudo bem. Tudo ótimo. Nem te conto...
Zuleica: - Alice, será que daria para você me emprestar aquele livro de SIMPATIAS? Conheci um gatão.
Alice: - Pois é. É sobre isto mesmo que quero lhe falar. Está faltando uma simpatia naquele livro...
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