A
CHAMADA
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Flora
Rodrigues
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Do outro lado da sala o telefone tocou. Ela correu atender. Levantou o auscultador. Esboçou um inseguro Estou... Mas do outro lado da linha, apenas uma leve respiração e a seguir o som do desligar. Era a terceira vez que esta cena se repetia. Pensou deixar o telefone fora do auscultador durante algum tempo, mas aguardava chamada do marido, que tinha viajado. Claro! Como estava a ser tonta . Provavelmente era ele que estava com dificuldades em estabelecer ligação. Ligou a Rádio. Estava frio . Ligou o aquecedor. O telefone voltou a tocar. Mais calma voltou atender. Do outro lado da linha uma voz se fez ouvir. - Estou? És tu Luísa? - Sim. Mas... - Não me estás a conhecer? Lembras-te daquele com quem costumavas dançar ao luar? Acordar deitada na areia? - Ricardo!!! Mas já passaram dez anos como me descobriste? - Nunca te perdi o rasto Luísa. Nunca! Lembro-me de ti todos os dias. Ao acordar, ao deitar. Durante as refeições. Durante as noites de insónia. Quando danço sozinho ao luar. - Ri... - Não digas nada. Deixa-me falar. Esta será provavelmente a última vez que me vais ouvir. Esta será provavelmente a última vez que te irei ligar. Eu sou a tua sombra. Persigo-te noite e dia. Sei tudo sobre os teus passos. Mudaste de casa, mudaste de emprego. Casaste. Estás talvez um pouco mais velha e mais forte do que quando eras a minha musa inseparável. Mas estás ainda mais bela do que eras. E eu estou só, porque tu aprisionaste a minha alma no teu ser. Embriagaste o meu ser com o néctar licoroso dos teus beijos. E a tua voz doce e suave ainda me murmura aos ouvidos doces palavras de amor prometendo-me a felicidade eterna que me negaste. - Vou d.. - Não desligues. Por favor não desligues. Podes dizer que sou louco. Talvez tenhas razão. Sou louco, louco por ti. Enlouqueci de paixão. Perdi de vez a razão. Mas não perdi o meu amor por ti. Por isso peço-te que me ouças. Esta é última vez que me ouvirás. Sei que já nem a minha voz tu reconheceste. Mas eu... eu nada de ti esqueci. Reconheço ainda o balançar do teu andar no meio de multidões. Quis desistir de ti. Esquecer-te. Mas a imagem de ti com outro homem é-me impossível de aceitar! - Tens uma casa recheada de conforto. Um marido, uma família. E eu... não tenho nada. - Sei que ainda não desligaste ouço o teu respirar! Ouviste não aceito que me esqueças. Estou mais perto de ti do que possas imaginar. Agora se quiseres podes falar. - Mas onde estás Ricardo? - Vejo que ninguém te encontrou. Ninguém te disse que eu morri? Que me matei quando casaste? - Deixa-te de brincadeiras de mau gosto. Os mortos não telefonam. - Tens a certeza ? Então desliga o teu telefone da ficha. - Podes ter a certeza que o vou fazer! Já te aturei mais do que devia. Se bem o disse, melhor o fez. Mas assim que Luísa acabou de desligar o telefone da ficha, este voltou a tocar. Exasperada tirou o auscultador do descanso. Mas o telefone continuava a tocar ininterruptamente. Foi invadida por um frio arrepiante quando ouviu uma voz a seu lado: - Vim buscar-te para uma dança ao luar... Enquanto Luísa tentava em vão parar de rodopiar, uma sinistra gargalhada ecoava no ar. |