SINGELO
HORINHAS GOSTOSAS COM A MINHA MÃE |
Suzi
Stimpel
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Mãe
é bom demais! A gente pode tudo com elas, até ficar zangada, falar o que
não deve que, no final, fica tudo bem.
A gente somente entende certas coisas de mãe, como aquela preocupação e a famosa frase "você vai ser sempre pequena para mim" quando se torna mãe também. Papo antigo? Papo de coroa? É mesmo! Espere só até você ter seu rebento, depois me conte. Minha mãe não é diferente das demais. Protege, ama, briga, brinca, amola bastante mas, principalmente, está sempre por perto quando a gente precisa. Dia desses eu estava com minha mãe na sala. Ela estava absorta assistindo a novela, recostada no sofá com as mãos atrás da cabeça. Aquela pose bem folgadona. Ela já tem 65 anos. Todas as sextas-feiras, depois que chega do trabalho, ela passa em minha casa para ver como estão as coisas, mas, principalmente, para ver o neto, é claro. Fiquei observando aquela cabecinha branca. Sem perceber, eu estava orando, pedindo que Deus a protegesse e desse a ela uma longa velhice. E que eu pudesse fazer por ela tudo o que ela faz por mim. Enquanto ela prestava atenção na novela, lembrei de cenas muito antigas. Meus pais se separaram quando eu e minha irmã éramos pequenas, tipo três anos, mais ou menos. De minha infância restam fragmentos e, muitas vezes, não consigo colocar as lembranças numa ordem cronológica. Mas do que eu lembrei foi a tristeza que eu sentia por não estar com ela. Eu fui morar com minha avó paterna por um tempo e depois com a avó materna. Minha mãe, para sobreviver, trabalhava como doméstica. Dormia na casa das patroas e nos viámos tão raramente, pois as folgas dela eram poucas. Fiquei recordando as histórias que ela costuma contar sobre quando vivia na roça, histórias de sua infância. Quando ela conta essas coisas eu viajo e chego a ver as cenas. Ela descreve a casa, o sítio, as matas, os riachos, seus animais de estimação. Fala de como eram seus cabelos quando era apenas uma garotinha. Seus olhos brilham quando se lembra do pai, que a amava como a um xodozinho. Lembra-se da morte dele, vítima de tuberculose. Quando ela fala essas coisas, minha mente desenha um canavial que de braços abertos recebe a chuva no final da tarde. Chego a sentir o cheiro dessa vida rural que ela tanto ama - e eu também. Ah, minha mãe, se eu pudesse lhe daria de volta esse tempo. Traria de volta sua infância, seu pai, seus irmãos pequenos brincando no terreiro. Mas a vida passa, e nossos sonhos se transformam. Vieram-lhe o casamento e as duas filhas, a vida em São Paulo. E o tempo levou embora suas tranças. Mas, felizmente, você está aqui comigo! De repente, começou a chover. - Filha, que toró! - Mãe, durma aqui hoje. - Ah....não. Eu gosto da minha caminha... e gosto de amanhecer em casa. Daí eu já limpo tudo e posso descansar. - Então, espere a chuva passar um pouco. Como é bom ter o privilégio de viver momentos assim, simples. Deixa a gente leve... Assim que a chuva passou. Minha mãe resolveu ir para casa. Fui com ela até o portão. - Amanhã a gente se vê, mãe? - Eu te ligo, ta? - Tchau! Boa noite, mãe, "minha" Maria. |