ALTER
EGO
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Luís
Valise
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- Ô Pacheco, você tá com bronca minha por alguma razão? Por acaso eu te fiz alguma coisa? Já é a segunda vez que eu te cumprimento na rua e você me ignora. A primeira foi quando você estava com a Vilma na fila do cinema e agora de novo, ontem, eu passei, você tava falando baixinho no ouvido da Vilma, entrando no Sereia, e eu disse "e aí, malandro, tudo em cima?", e fiquei de novo com cara de tacho porque você me olhou e me deu uma senhora de uma ignorada! Pacheco ficou com o olhar perdido, mergulhado na lembrança de reclamações como aquela. Já era a quarta ou quinta vez que alguém lhe dizia tê-lo visto com a mulher em lugares que ele desde há muito não estivera. E agora essa, no Sereia? Há séculos ele não levava a Vilma pra tomar chopp no Sereia! Enquanto pensava reparou na cara do Everaldo esperando pela resposta e improvisou: - Desculpa, mano, mas as coisas lá em casa estão meio assim, você sabe, a gente tá vendo que rumo a coisa vai tomar. Não era a melhor desculpa, na verdade era uma grande mentira, em casa as coisas estavam normais, como sempre, desde sempre. Mas por que então ele ultimamente vinha ouvindo esse tipo de queixa? Foi para casa, pensando. - Vida, amanhã vou pro sul. Devo ficar fora uns dez dias. A mulher fez biquinho dengoso: - de novo, Paxá? Pra ela Pacheco era Paxá. Outra vez eu vou ficar aqui sozinha? Pacheco abriu a mala em cima da cama: - é por pouco tempo. Passa logo. Na manhã seguinte falou alto pro motorista do táxi: - aeroporto! Depois de duas quadras deu a direção planejada: - toca pro centro. E o motorista: - mas doutor, e o aeroporto? Respondeu em voz baixa: aterriso na Duque de Caxias! No hotel muquifo o quarto era modesto como o endereço: cama de solteiro, criado-mudo com moringa e copo, um guarda-roupa com a porta empenada. Banheiro com box de cortina, tapetinho de borracha, pia, armarinho com espelho. Pendurou a roupa, deitou na cama na penumbra, acendeu um cigarro, esperou. Pro almoço desceu até o bar encardido que ficava debaixo do hotel e comeu um sanduíche de pernil. Seja lá o que Deus quiser! À tardinha continuou com o plano: pegou a moto alugada, uma 125 com a pintura descorada e uma caçamba de entrega no bagageiro. Meteu a cabeça num capacete ralado e foi pras redondezas do Sereia. Deu voltas no quarteirão, levou fechadas de alguns carros, xingou, foi xingado, essas coisas de motoboy. Passou duas vezes em frente de casa e não notou nada. Já estava começando a ficar cansado daquilo quando eles chegaram no Sereia. Ele e a Vilma. Quer dizer, ele ELE! Esfregou os olhos detrás da viseira, encostou a moto perto da entrada e não acreditou no que via: ele a Vilma sentados de mãos dadas, à espera do chopp. Porra, era ele EU! Ele ERA eu! Igualzinho! Tirando aquilo de "mãos dadas", que o Pacheco não era dessas viadagens, o pinta era uma xerox. Pacheco ligou a moto e deu outra volta no quarteirão, deixando o vento bater na cara paralisada de espanto. Eram pelas dez da noite quando a dupla levantou e foi embora. De mãos dadas, cochichos no pé do ouvido, um grude. Pacheco parou na esquina e viu quando entraram na sua casa. Voltou dali mesmo, nem quis passar pela porta com medo de ouvir os gemidos. Se encontraram todos os dias. Chegou do "sul". Desceu do táxi, meteu a chave na fechadura e ouviu lá de dentro: - Paxá!! Mal abriu a porta e dois braços alvos e macios rodearam seu pescoço, sentiu os lábios pensando nele. A voz melosa se enroscou nos chifres invisíveis: saudadinha de euzinha? - Vidinha (ainda tinha que chamar assim!) o vôo atrasou, tô um tremendo bagaço. Desarruma a mala pra mim? E se enfiou debaixo do chuveiro, e dentro dum pijama, e se escondeu num sono de araque. Dia seguinte foi no Sereia. Assim que entrou o garçon Valdemar, vinte anos de casa, chegou meio sem jeito: - Pacheco, eu sei que não tenho nada com isso, mas vê se manera que o povo tá falando. Tô te dando um toque porque você é freguês antigo, meu considerado. Não me leve a mal. Mas isso de ficar de fogo todo dia tá ficando chato. Até ela, que nunca foi de beber! Sossega, leão! Vai um sem colarinho? Pacheco aceitou, abaixou os olhos e engoliu a vergonha com o chopp. O ódio veio junto com o arroto. Esperou que tudo estivesse quieto. Chegou de dentro de uma "viagem", pulou o muro dos fundos, o cachorro abanou o rabo e voltou a dormir. Entrou pela porta da cozinha. Na sala resto de vinho nas taças, no quarto um ronco pesado. Até no ronco o puto se parecia com ele! Tirou a navalha do bolso. Sua Vidinha estava deitada de lado, a jugular pulsando. Antes que perdesse a coragem, deu um talho fundo na carótida do come-quieto. Ele não sentiu, nem acordou, nunca mais. Colocou com cuidado a navalha ensangüentada na mão da Vilma e saiu por onde entrara, trancando a porta por fora com uma cópia da chave. Antes de pular o muro foi na direção do cachorro que dormia e pisou com toda força no rabo do pobre animal. Que ganido! E os latidos! As luzes da vizinhança se acenderam em instantes. E os gritos da Vilma acordaram o resto da cidade. Isso já tem algum tempo. Ele sente um prazer todo especial quando passa pela penitenciária feminina. Sempre manda um beijo pra sua Vidinha: do Paxá. Depois passa no Sereia. Ninguém liga mais pro motoboy maluco que nunca tira o capacete. Nem pra tomar um chopp. |