CUL-DE-SAC
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Luís
Valise
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Quando me disseram: - manda ver aí sobre labirinto!, eu pensei: -é bico. Nada mais fácil do que discorrer sobre a vida, que outra coisa não é se não um partir de não sei onde pra chegar sabe-se lá como! E se, vencido pela humana ignorância, me aflige o desconhecido que se oculta na curva da próxima descoberta, apelo logo pra geometria: repouso minha cabeça nas tuas coxas prateadas por fina penugem, respiro o cheiro quente do abismo, faço uma tangente no vértice do triângulo sedoso e dou um beijo de amor na própria bissetriz. Mas vamos ao que interessa. Quer dizer, vamos assim que resolvido qual caminho tomar, pois que pra falar de labirintos primeiro temos que escolher a entrada e depois rezar pela saída. Podemos tentar uma abordagem metafísica, à moda do Kahyamm, que debitava tudo ao amargor do primeiro beijo entre Adão e Eva. Também podemos enveredar pelo pragmatismo de um Vinícius, para quem em primeiro lugar deve vir a beleza: - fundamental.Ainda que leviano. O conceito, digo, não a beleza. Embora, convenhamos, beleza também não passe de conceito, podendo mudar conforme a época ou a geografia. Ou o sentimento (a quem ama, o feio bonito lhe parece. Si non é vero é bene trovatto, se é que me faço entender). Falando em Vinícius outro dia eu vi aquela que foi a Garota de Ipanema e que passava cheia de graça. Achei meio passada. Passou, tendo ficado para sempre. Outro atalho que poderia ser tomado é o dos parnasianos. Bilac, se não me engano, falava na "estrela vésper do pastor errante". Eu já achei uma estrela vésper. Seu brilho, se iluminou-me o coração, também me deixou perdido, meio sem saber se a vida ia ou vinha, e até hoje não sei chegar à felicidade, mas essa é outra história. Não fui convocado pra falar de amor, embora não possa deixar de mencionar o lírico Chico, que dizia do sangue que errou de veia e se perdeu. Nesse mar de amor eu também me perdo!, com a devida licença poética. Um outro poeta, gaúcho se não me engano, dizia pra quem vinha de longe e cansada: entra, e sob meu teto encontrarás abrigo. Quem vem de longe e cansado decerto errou por tantos caminhos... Eu, por exemplo, ao chegar cansado de todas as andanças gostaria de ouvir "que bom que chegastes. Eu também te procurava pela vida inteira". Depois, na imagem forte do Cony, montaríamos num corcel sem crina e sem olhos, e partiríamos para um mundo pleno de amores, soluços e estertores, sendo a imagem do Cony essa do corcel sem crina e sem olhos. O resto é culpa minha mesmo. Mas são falsos, esses caminhos. Frios e falsos como um sábado sem sol. Na verdade ando em torno de mim, na esteira dos meus passos, à minha procura. A única linha reta que me seduziu foi o rumo da flecha que saiu dos teus olhos doces. Certeira, se recusa ao alforje do esquecimento e ainda me cutuca o coração com sua ponta de diamante. Dentro do sono persigo um sorriso que ziguezagueia no escuro de um labirinto sem paredes, feito de memórias que se fecham sobre mim como um útero de veludo, em que guardo, com cuidado, nossas almas siamesas. |
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