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GAIOLA VAZIA
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May
Parreira e Ferreira
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Papai era agrônomo, sua especialidade café. Sabia tudo sobre café. Como editor-chefe do Suplemento Agrícola escrevia seus artigos com o pseudônimo de João Café. Sua receita para um bom café é até hoje uma felicidade para as garotas que querem impressionar os namorados apreciadores do bom café: para cada copo de água fervente, uma colher (de sopa) bem cheia de pó, (e duas rasas de açúcar naquele tempo era costume tomar o café já adoçado). Não se deve deixar a água ferver por mais de 3 minutos, pois o sabor vai embora junto com o oxigênio. João Café também era o responsável pelo desenvolvimento do cafezal de algumas fazendas, cujos donos depositavam em suas mãos, além de um salário conveniente, a certeza de técnicas revolucionárias. Suas visitas eram regulares e quinzenais. Uma dessas fazendas pertencia ao meu tio-avô, e eu a companhia mais constante de papai nessas viagens. Vez ou outra, mamãe e minha irmã caçula nos acompanhavam. Numa dessas vezes, casa cheia de hóspedes, durante o passeio pela sebe, minha mãe ficou paralisada diante de uma gaiola, dessas imensas de grades altas, repleta de vários tipos de pássaros canoros. Todos os visitantes elogiaram a maravilha. Durante a noite, pedi à mamãe que fosse buscar água para mim, porque eu tinha muito medo de andar por aqueles corredores, fantasmagóricos à luz de vela. Sua demora foi maior que a de costume. Dia seguinte pela manhã, todos a tomar o desjejum, quando a Miquelina, a cozinheira negra, entra carregando o enorme volume de seu corpo e gritando pela sala ACUDA DOTÔ, QUE ARGUMA CRIANÇA MARVADA ABRIU A GAIOLA I SORTÔ OS PASSO. Pelo visível estado de choque e por nossos olhos esbugalhados, o tio acreditou imediatamente que não havia sido eu ou minha irmã. Foi um dia de constrangimento entre os convivas e muito choro da tia-avó. Muitos anos se passaram, e noutro dia, conversando sobre a fazenda, minha mãe muito tímida e sem graça nos contou, Sabe aquela vez da gaiola, fui eu. Não agüentei ver os bichinhos presos na gaiola. |
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